A REGRA ÁUREA – Rodolfo Calligaris – O Sermão da Montanha

“Tudo o que vós quereis que vos façam os homens, fazei-o

também vós a eles, porque esta é a lei e os profetas.
” (Mateus,

7:12.
)

Conhecedor profundo da alma humana, sabia o Mestre que a

preocupação constante dos homens de seu tempo (como ainda dos

de hoje) consistia em receber, do meio social a que pertenciam, o

máximo possível em gozo e em posse, sinal característico do forte

egoísmo que os dominava.

Tomando, pois, esse amor de cada um a si mesmo, como padrão

dos nossos deveres para com o próximo, estabeleceu Ele o meio

mais fácil e mais seguro pelo qual haveremos de compreender o

que e quanto devemos dar, em obediência à lei do amor universal

que nos cumpre desenvolver, a fim de que se estabeleça em nosso

mundo o reinado de Deus.

Em nossas múltiplas relações com os outros, coloquemo-nos

em seu lugar: identifiquemo-nos com os seus sentimentos,

sintamos-lhes as dificuldades, conheçamos- lhes os anseios, e,

depois, façamos-lhes como, invertendo-se os papéis, desejaríamos

que eles procedessem conosco.

Não há melhor estalão com que aferir a nossa honestidade, nem

expressão mais legítima do “amor ao próximo como a nós

mesmos”.

Esta regra áurea, se praticada por todos, faria que se

modificassem completamente as condições de vida de nosso

planeta.
Extinguir-se-iam, uma a uma, todas as causas de

sofrimento da Humanidade; desobstruir-se-ia o caminho dos

pedrouços que lhe embaraçam o progresso moral e, ao cabo de

algum tempo, a felicidade seria geral, porque já então, morto o

egoísmo em todas as suas formas: o egoísmo pessoal, de família,

de casta e de nacionalidade, veríamos implantado entre os

terrícolas o primado da abnegação, da caridade, do

desprendimento, da justiça, da paciência, da tolerância, da

solidariedade, da paz etc.
, porque as grandes e nobres virtudes,

sem exceção, são, todas elas, filhas do Amor.

Dizendo-nos que “esta é a lei e os profetas”, quis Jesus

significar que esta regra de proceder resume toda a Lei Divina e

tudo quanto fora ensinado pelos profetas da Antiguidade.

O “fazei aos outros o que quereis que os outros vos façam”

contém a mesma verdade deste outro ensinamento doutrinado

algures no Sermão da Montanha: “com a medida com que

medirdes, também sereis medidos”.
É a lei da causalidade.
A toda

causa corresponde um efeito, o qual será sempre da mesma

natureza da causa que o originou.

Aquilo que fizermos aos outros, seja bem ou seja mal, terá,

certamente, sua reação sobre nós, em bênçãos ou em sofrimento.

Tudo quanto dermos, havemos de receber de volta.
Os benefícios

que fizermos ao próximo são-nos retribuídos em dobro, aqui

mesmo na Terra, em tempos de necessidade, ou no Além, na

moeda do Reino, em alegrias espirituais.

Da mesma sorte, o mal praticado a dano de outrem volve

também.
Todos os atos maléficos dão origem a sofrimentos para

quem os cometeu, o qual, nesta ou em futuras encarnações, será

levado a passar pelas amarguras por que fez outros passarem;

sentirá aquilo que eles sofreram.

E isso, que a alguns pode parecer uma negação do amor de

Deus para conosco, é, ao contrário, a mais solene afirmação de seu

amor paternal, pois Ele quer que todas as criaturas progridam,

combatam a dureza de coração e se transformem em templos

vivos, para aí fazer sentir sua augusta presença.

Os sofrimentos que decorrem das transgressões às Leis Divinas

servem-nos de advertência; fazem-nos sentir a diferença entre o

bem e o mal e dão-nos a experiência de que colheremos segundo

o que plantarmos.
Se semearmos o bem, colheremos o bem; se

espalharmos o mal, teremos de lhe arcar com as funestas

consequências.

Assim não fora e, confiantes na impunidade, retardaríamos

nosso avanço, retardando, consequentemente, nossa felicidade

futura na santa comunhão com Deus.

A regra áurea é a única e verdadeira norma de Cristianismo.

Assim, uma religião que nos leve a negligenciar as obras de

misericórdia em favor dos necessitados, dos aflitos e dos

sofredores, ensinando ser suficiente “crer” deste ou daquele modo

para fazermos jus aos gozos celestiais; que nos induza a considerar

réprobos desprezíveis todos quantos divirjam de nossa “fé”; que

advogue a discriminação racial ou qualquer outra forma de

desunião entre os homens, exaltando uns e menosprezando outros,

está defraudando a doutrina cristã, é espúria e blasfema, pois

pretende impingir concepções e preconceitos humanos como

ordenações de Deus.

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