Evangelho Segundo o Espiritismo Parte 17

CAPÍTULO IV

NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO
NASCER DE NOVO

Ressurreição e Reencarnação. A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe. Instruções dos Espíritos: Limites da encarnação. Necessidade da encarnação.

1. Jesus, tendo vindo às cercanias de Cezaréia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: Que dizem os homens, com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que eu sou? – Eles lhe responderam: Dizem uns que és João Batista, outros, que Elias, outros, que Jeremias, ou algum dos profetas. Perguntou-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou? Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. – Replicou-lhe Jesus: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. (S. Mateus, cap. XVI, vv. 13 a 17, S. Marcos, cap. VIII, vv. 27 a 30.)

2. Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso – porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos, outros que aparecera Elias, e outros que uns dos antigos profetas ressuscitara. Disse então Herodes: Mandei cortar a cabeça a João Batista, quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas? E ardia por vê-lo. (S. Marcos, cap. VI, vv. 14 a 16, S. Lucas, cap. IX, vv. 7 a 9.)

3. (Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogam desta forma: Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias? Jesus lhes respondeu: É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem. Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13, S. Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13.)

RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO

4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nisso. As idéias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se. Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá idéia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, segundo a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João, pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado.

5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodememos, senador dos judeus que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele. Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Disse-lhe Nicodemos: Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? Retorquiu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. – Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai, o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito. Respondeu-lhe Nicodemos: Como pode isso fazer-se?

Jesus lhe observou: Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto.

Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do céu? (S. JOÃO, cap. III, vv. 1 a 12.)

6. A idéia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1, nº 2, nº 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária, quando diz: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. E insiste, acrescentando: Não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo.

7. Estas palavras: Se um homem não renasce do água e do Espírito foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo, porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que nalgumas traduções as palavras do Espírito foram substituídas pelas seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram lugar, como se comprovará um dia, sem equívoco possível. (1)

8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que lhe é própria. Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas.

Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água como elemento gerador absoluto. Assim é que na Gênese se lê: O Espírito de Deus era levado sobre as águas, flutuava sobre as águas, – Que o firmamento seja feito no meio das águas, Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido, Que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.

Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: Se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito.

Jesus estabelece aí uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste. água e em Espírito , significam pois: Se o homem não renasce com seu corpo e sua alma. E nesse sentido que a principio as compreenderam. Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras:

9. O Espírito sopra onde quer, ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele vem, nem para onde vai: pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que dá a quem ele quer, ou da alma do homem. Nesta última acepção não sabes donde ele vem, nem para onde vai significa que ninguém sabe o que foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o começo. Como quer que seja, essa passagem consagra o princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.

10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam, pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o EIias que há de vir. Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (S. MATEUS, cap. XI, vv. 12 a 15.)

11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência : outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura. E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir.

Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.

12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo, aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó, porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (ISAÍAS, cap. XXVI, v. 19.)

13. E também muito explícita esta passagem de lsaías: Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo. Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem, e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contra-senso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.

75 total views, 3 views today