O JEJUM – Rodolfo Calligaris – O Sermão da Montanha

“Quando jejuardes, não vos ponhais tristes como os

hipócritas, que desfiguram o semblante para que os homens vejam

que eles estão jejuando.
Em verdade vos digo que já receberam a

sua recompensa.

Vós, quando jejuardes, perfumai a cabeça e lavai o rosto, a fim

de que o vosso jejum não seja visível aos olhos dos homens e sim

aos do vosso Pai, que tem presente a si o que haja de mais secreto;

e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos

recompensará.
” (Mateus, 6:16 a 18.
)

Sabe-se que o jejum — abstenção ou redução na dose usual de

alimentos, sólidos ou líquidos — constitui uma forma de

penitência comum a várias religiões.

Os judeus, quando o praticavam, vestiam-se com saco,

lançavam cinza sobre a cabeça e imprimiam ao rosto um ar de

grande tristeza, tudo isso publicamente, com ostentação, para

serem notados e louvados pelos outros.

Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia e o orgulho, recomendou a

seus discípulos que, ao fazerem esse sacrifício, não deixassem

transparecer nenhum sinal de melancolia; ao contrário, que

“perfumassem a cabeça e lavassem o rosto”, a fim de que não

perdessem, aos olhos de Deus, o mérito que um sincero

quebrantamento de alma poderia comunicar a esse costume.

Parece-nos que um dia de jejum por semana, como ainda hoje

é observado por alguns, constitui, realmente, um hábito salutar,

pois contribui para desintoxicar e manter o equilíbrio de nosso

organismo, resultando daí reflexos favoráveis até mesmo ao nosso

psiquismo, ou seja, às nossas manifestações intelectuais e morais.

Conta-se, por exemplo, que certo dia, ao sair de um festim,

Filipe de Macedônia foi procurado por uma pobre mulher, que lhe

implorou a reparação de uma injustiça.

Como a condenasse, ela exclamou:

— Apelo!

— E para quem? — Perguntou o rei.

— Para Filipe, em jejum.

Impressionado por essa resposta, ele decidiu reexaminar a

questão e, depois, em nova disposição, modificou a sentença.

O Espiritismo, por não adotar ritual de espécie alguma, tem

como estéril qualquer privação que obedeça a mero formalismo

religioso, considerando mais importante que nos abstenhamos de

qualquer pensamento, palavra ou ato maldoso, por contrários ao

amor fraternal que a todos nos deve unir.

Acha meritório, entretanto, que nos privemos de alguma coisa

necessária à nossa vida para dá-la a quem mais precise dela,

porque aí haverá abnegação e caridade.

Recomenda, também, como exercício proveitoso ao nosso

progresso espiritual, que sejamos sóbrios e moderados em tudo e,

em vez de mortificarmos a carne, o que, muitas vezes, só serve

para arruinar nossa saúde, impedindo-nos de bem cumprir a lei do

trabalho e deveres outros para com o meio social, tratemos de

mortificar os nossos instintos inferiores, privando-os da satisfação

de prazeres grosseiros ou inúteis, para não adquirirmos hábitos

viciosos que, uma vez enraizados, tornar-se-ão difíceis de

extirpar.

Outra forma de jejum que não se cansa de aconselhar é a

castidade, ou melhor, o emprego metódico das forças geradoras,

porque, conforme está hoje comprovado, o abuso dos prazeres

sexuais ocasiona a fraqueza cerebral, determina esgotamento das

energias mais nobres e conduz à decadência moral, senão mesmo

à loucura.

Tais forças, quando controladas racionalmente, canalizam-se

para as funções mais elevadas do homem: as da mente e do

coração; e, sublimando-o, tornam-no apto a grandiosas

realizações em prol da coletividade.
E isso, sem dúvida, será a

maior recompensa que um discípulo do Cristo pode almejar.

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