18 O MATERIALISTA – DIÁLOGO COM AS SOMBRAS HERMÍNIO C. MIRANDA

Este não constitui problema difícil, no trabalho de esclarecimento.
Viveu, na carne, convicto de que além da matéria nada existe; de que, além da morte, só há o silêncio e a escuridão do não-ser.
Às vezes, tais posições foram meramente filosóficas, isto é, platônicas.
A despeito da descrença em qualquer tipo de realidade póstuma, não foram intrinsecamente maus, apenas desencantados, indiferentes, desarvorados intimamente, embora, na aparência, seguros e tranqüilos.
São mais acessíveis, e mais prontamente aceitam a nova realidade.

Outros, porém, são daqueles que, descrentes da vida espiritual, entregaram-se de corpo e alma ao culto desenfreado da ma téria.
Ao contrário dos teóricos do materialismo, estes são os que o praticam, em todos os sentidos.
Disputaram fortunas a ferro e fogo, intrigando, matando, se preciso fosse, promovendo negociatas, roubando, falsificando, ao mesmo tempo em que se deixaram arrastar pelo sensualismo pesado, que avilta todos os sentidos e anestesia cada vez mais as faculdades e a sensibilidade.
Para estes, nada é sagrado, nada importa, senão a satisfação de suas ambições, de seus desejos, de suas vontades.

A objetiva realidade da vida póstuma põe-nos em estado de total confusão.
Alguns deles, endurecidos nas suas convicções, continuam a viver no mesmo clima de maquinações e articulações, ainda presos aos seus interesses terrenos, perseguindo aqueles encarnados e desencarnados que se atravessaram no seu caminho.
Geralmente desejam a volta à carne, pois somente nela se sentem relativamente felizes, não apenas pelo esquecimento de suas misérias íntimas, mas porque lhes proporciona os prazeres mais grosseiros a que se habituaram.

Em outros, o choque desperta para uma condição que eles não poderiam jamais admitir sem o impacto da desencarnação.
Quando incorporados aos médiuns, embora confusos, a princípio, acabam por reconhecer que continuam vivos depois da “morte”, pois estão pensando e falando, vendo e sentindo, através de um corpo que, evidentemente, não é o seu.
Lembram-se das doenças que tiveram, mas se recusam a admitir que “morreram”, porque isto implicaria reconhecer que o materialismo que professavam éinteiramente falso.
A relutância é, ainda, vaidade.
Preferem continuar negando, por algum tempo, do que admitirem, honestamente, que foram ludibriados por sua própria descrença na verdade superior.

É preciso conduzi-los com tato e paciência.
A súbita e inoportuna revelação da nova condição em que se encontram, poderá colocá-los em lamentável estado de choque emocional.
Temos que compreender que é difícil àquele que não acredita na sobrevivência admitir que, a despeito da descrença em si mesmo, ele sobreviveu.

Em “Reformador” de setembro de 1975, no artigo “Lendo e Comentando”, está relatado um caso desses, tratado com extrema habilidade e carinho por uma excelente doutrinadora inglesa.
O Espírito, por nome Tom, vivera agarrado aos seus bens e, especialmente, ao seu ouro, e, na sua imaginação, continuava a manipular as moedas, no mundo espiritual, totalmente desligado da nova realidade que vivia.
Aos poucos, vai sendo conduzido a admiti-la.

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