8 O martírio em Jerusalém – PAULO E ESTEVÃO – FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Obedecendo às recomendações de Tiago, Paulo de Tarso hospedou-se

em casa de Mnason, antes de qual quer entendimento com a igreja.
O Apóstolo

galileu prometeu visitá-lo na mesma noite.

Pressentindo acontecimentos de importância naquela fase de sua

existência, o ex-rabino aproveitou o dia traçando planos de trabalho para os

discípulos mais diretos.

À noite, quando espesso manto de sombras envolvia a cidade, Tiago

apareceu, cumprimentando o companheiro em atitude muito humilde.
Também

ele estava envelhecido, exausto, doente.
O convertido de Damasco, ao con –

trário de outras vezes, experimentou extrema simpatia pela sua pessoa, que

parecia inteiramente modificada pelos reveses e tribulações da vida.

Trocadas as primeiras impressões relativamente às viagens e feitos

evangélicos, o companheiro de Simão Pedro pedi u ao ex-rabino lhe marcasse

lugar e hora em que pudessem falar mais intimamente.

Paulo atendeu de pronto, seguindo ambos para um aposento particular.

O filho de Alfeu começou explicando o motivo de suas graves apreensões.

Havia mais de um ano que os rabino s Eliakím e Enoch deliberaram reviver os

processos de perseguições iniciados por ele, Paulo, quando da sua

movimentada gestão no Sinédrio.
Alegaram que o antigo doutor incidira nos

sortilégios e feitiçarias da espúria grei, comprometendo a causa do judaís mo, e

não era justo continuar tolerando a situação, tão -somente porque o doutor

tarsense perdera a razão, no caminho de Damasco.
A iniciativa ganhara

enorme popularidade nos círculos religiosos de Jerusalém e o maior instituto

legislativo da raça — o Sinédrio — aprovou as medidas propostas.

Reconhecendo que a obra evangelizadora de Paulo produzia maravilhosos

frutos de esperança em toda a parte, conforme as notícias incessantes, de

todas as sinagogas das regiões por ele percorridas, o grande Tribunal come çou

por decretar a prisão do Apóstolo dos gentios.
Numerosos processos de

perseguição individual, deixados a meio por Paulo de Tarso, quando de sua

inesperada conversão, foram restaurados e, o que era mais grave — quando

falecidos os réus, era a pena aplic ada aos descendentes, que, assim, eram

torturados, humilhados, desonrados!

Oex-rabino tudo ouvia calado, estupefato.

Tiago prosseguia, esclarecendo que tudo fizera por atenuar os rigores da

situação.

Mobilizara influências políticas ao seu alcance, conseg uindo atenuar umas

tantas sentenças mais iníquas.
Não obstante o banimento de Pedro, procurou

manter os serviços de assistência aos desvalidos, bem como a colônia de

serviço, fundada por inspiração do convertido de Damasco e na qual os

convalescentes e desamparados encontravam precioso ambiente de atividade

remunerada e pacífica.
Depois de vários entendimentos com o Sinédrio, por

intermédio de amigos influentes no judaísmo, teve a satisfação de abrandar o

rigor das exigências a serem aplicadas no caso del e, Paulo.
O ex-doutor de

Tarso ficaria com liberdade de agir, poderia continuar propugnando suas

convicções íntimas; daria, porém, uma satisfação pú blica aos preconceitos de

raça, atendendo aos quesitos que o Sinédrio lhe apresentaria por intermédio de

Tiago, que se mostrava seu amigo.
O companheiro de Simão Pedro explicava

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que as exigências eram muito rigorosas a princípio, mas agora, mercê de

enormes esforços, cingiam-se a uma obrigação de somenos.

Paulo de Tarso escutava-o extremamente sensibilizado.
Dono de luminoso

cabedal evangélico, entendia chegado o momento de testemunhar seu

devotamento ao Mestre, justamente através do mesmo órgão de persegui ção

que a sua ignorância engendrara em outros tempos.
Naqueles minutos rápidos,

sutilizou a mnemônica e lobrigou os quadros terríveis de outrora.
.
.
Velhos

torturados em sua presença, para sentir o prazer da apostasia cristã, com a

repetição do voto de fidelldade eterna a Moisés; mães de família arrancadas de

seus lares obscuros, obrigadas a jurar pela Antiga Lei, que renegavam o

carpinteiro de Nazaré, abominando a cruz do seu martírio e ignomínia.
Os

soluços daquelas mulheres humildes, que abjuravam da fé porque se viam

feridas no que possuíam de mais nobre, o instinto maternal, chegavam, agora,

a seus ouvidos como brados de angústia, clamando resgates dolorosos.
Todas

as cenas antigas desdobravam-se-lhe na retina espiritual, sem omissão do

mais insignificante pormenor.
Moços robustos, arrimos de famílias numerosas,

que saíam mutilados do cárcere; jovens ‘ que pediam vingança, crianças que

reclamavam os pais encarcerados.
Entestando as revocações encapeladas,

passou ao quadro da morte horrível de Estevão com as pedradas e insul tos do

povo; reviu Pedro e João abatidos e humildes, à barra do Tribunal, como s e

fossem malfeitores e criminosos.
Agora, ali estava ele perante o filho de Alfeu,

que nunca o compreendera de forma integral, a falar -lhe em nome do passado

e em nome do Cristo, como a conci tá-lo ao resgate de suas derradeiras dívidas

angustiosas.

Paulo de Tarso sentiu que uma lágrima lhe apon tava nos olhos, sem

chegar a cair.
Que espécie de tor tura lhe estaria reservada? Quais as

determinações da autoridade religiosa a que Tiago se referia com evidente

interesse?

Quando o companheiro de Simão fez uma pausa mais longa, o ex-rabino

perguntou muito comovido:

—Que pretendem eles de mim?

O filho de Alfeu fixou nele os olhos serenos e explicou:

— Depois de muito relutarem, os israelitas congre gados em nossa igreja

vão pedir-te, apenas, que pagues as despes as de quatro homens pobres, que

fizeram voto de nazireu, comparecendo com eles no templo, durante sete dias

consecutivos, para que todo o povo possa ver que continuas bom judeu e leal

filho de Abraão.
.
.
À primeira vista, a demonstração poderá parecer pueri l;

entretanto, colima, como vês, satisfazer a vaidade fa risaica.

O ex-rabino fez um gesto muito seu, quando con trariado, e replicou:

—Pensei que o Sinédrio ia exigir minha morte!.
.
.
Tiago compreendeu

quanto de repugnância transbor dava de semelhante observação e objetou:

—Bem sei que isso te repugna e, contudo, insisto para que acedas, não

por nós, propriamente, mas pela igreja e pelos que de futuro nos hajam de

secundar.

—Isso — obtemperou Paulo, com enorme desen canto — não representa

nobreza alguma.
Essa exigência é uma ironia profunda e visa reduzir -nos a

crianças, de tão fútil que é.

Não é perseguição, é humilhação; é o desejo de exibir homens conscientes

como se fossem meninos volúveis e ignorantes.
.
.

Tiago, porém, tomando uma atitude carinhosa qu e o ex-rabino jamais lhe

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surpreendera em qualquer cir cunstâncias da vida, falou com extrema ternura

fraternal, revelando-se ao companheiro surpreendido, por outro prisma:

Sim, Paulo, compreendo tua justa aversão.
O Sinédrio, com isso, pretende

achincalhar nossas convicções.
Sei que a tortura na praça pública te doeria

menos; entretanto, supões que isso não represente, para mim uma dor de

muitos anos?.
.
.
Acreditarias, acaso, que minhas atitudes nascessem de um

fanatismo inconsciente e criminoso? Compreendi, muito cedo, desde a primeira

perseguição, que a tarefa de harmonização da igreja, com os judeus, estava

mais particularmente em minhas mãos.
Como sabes, o farisaísmo sempre

viveu numa exuberante ostentação de hipocrisia; mas, con venhamos, também,

que é o partido dominante, tradicio nal, das nossas autoridades religiosas.

Desde o primeiro dia, tenho sido obrigado a caminhar com os fariseus muitas

milhas para conseguir alguma coisa na manutenção da igreja do Cristo.

Fingimento? Não julgues tal.
Muitas v ezes o Mestre nos ensinou, na Galiléia,

que o melhor testemunho está em morrer devagarinho, dia riamente, pela vitória

da sua causa; por isso mesmo, afiançava que Deus não deseja a morte do

pecador, porque é na extinção de nossos caprichos de cada dia que

encontramos a escada luminosa para ascender ao seu infinito amor.
A atenção

que tenho dedicado aos judeus é gêmea do carinho que consagras aos

gentios.
A cada um de nós confiou Jesus uma tarefa diferente na forma, mas

idêntica no fundo.
Se muitas vezes ten ho provocado falsas interpretações das

minhas atitudes, tudo isso é mágoa para meu Espírito habituado à simplicidade

do ambiente galileu.
De que nos valeria o conflito des truidor, quando temos

grandiosos deveres a cuidar? Importa -nos saber morrer, para que nossas

idéias se transmitam e floresçam nos outros.
As lutas pessoais, ao contrário,

estiolam as melhores esperanças.
Criar separações e proclamar seus

prejuízos, dentro da igreja do Cristo, não seria exterminarmos a planta sagrada

do Evangelho por nossas próprias mãos?

A palavra de Tiago toava imantada de bondade e sabedoria e valia por

consoladora revelação.
Os galileus eram muito mais sábios que qualquer dos

rabinos mais cultos de Jerusalém.
Ele, que chegara ao mundo reli gioso através

de escolas famosas, que tivera sempre na mocidade, a inspiração de um

Gamaliel, admirava agora aqueles homens aparentemente rústicos, vindos das

choupanas de pesca, que, em Jerusalém, alcançavam inesque cíveis vitórias

intelectuais, somente porque sabiam calar quando opo rtuno, aliando à

experiência da vida uma enorme expressão de bondade e renúncia, à feição do

Divino Mestre.

O convertido de Damasco entreviu o filho de Alfeu por um novo prisma.

Seus cabelos grisalhos, o rugoso e macilento rosto, falavam de trabalhos

árduos e incessantes.
Agora, percebia que a vida exige mais compreensão que

conhecimento.
Presumia conhecer o Apóstolo galileu com o seu cabedal

psicológico, e, no entanto, chegava à conclusão de que apenas naquele

instante pudera compreendê-lo no título que lhe competia.

Quando o companheiro de Simão Pedro fez uma pausa mais longa, Paulo

de Tarso contemplou-o com imensa simpatia e falou comovidamente:

—Vejo que tens razão, mas a exigência requer dinheiro.
Quanto terei de

pagar pela sentença? Segregado e distante do judaísmo há muitos anos,

ignoro se os cerimoniais sofreram alterações apreciáveis.

—Os preceitos são os mesmos — respondeu Tiago —, já que serás

obrigado a te purificares com eles e, segundo as tradições, custearás a compra

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de quinze ovelhas, além dos comestíveis preceituais.

—É um absurdo! — objetou o Apóstolo dos gentios.

—Como sabes, a autoridade religiosa exige de cada nazireu três animais

para os serviços da consagração.

—Dura exigência — disse Paulo comovido.

—No entanto — replicou Tiago, com um sorriso —, nossa paz vale muito

mais que isso e, além dela, somos obrigados a não comprometer o futuro do

Cristianismo.

O convertido de Damasco descansou o rosto na mão direita por longo

tempo, dando a perceber a amplitude de suas meditações, e ac abou falando

em diapasão que traía a sua enorme sensibilidade:

—Tiago, como tu mesmo, atingi hoje um nível mais alto de compreensão

da vida.
Entendo melhor os teus argumentos.
A existência humana é bem uma

ascensão das trevas para a luz.
A juventude, a p resunção de autoridade, a

centralização de nossa esfera pessoal, acarretam muitas ilusões, laivando de

sombras as coisas mais santas.
Assiste -me o dever de curvar-me às exigências

do judaísmo, conseqüentes de uma perseguição por mim próprio

iniciada em outros tempos.

Deteve-se, evidenciando dificuldade para confessar -se plenamente.
Mas

tomando uma atitude mais humilde, como quem não encontra outro recurso,

prosseguiu quase tímido:

— Nas minhas lutas, nunca me presumi vítima, considerando -me sempre

como antagonista do mal.
Só Jesus, em sua pureza e amor imaculados, podia

alegar a condição de anjo vitimado por nossa maldade sombria; quanto a mim,

por mais que me apedrejassem e ferissem, sempre julguei que era muito pouco

em relação ao que me competia sofrer n os justos testemunhos.
Agora, porém,

Tiago, estou preocupado com um pequenino obstáculo.

Como não ignoras, tenho vivido absolutamente do meu trabalho de tecelão

e, presentemente, não disponho de dinheiro com que possa prover às

despesas em perspectiva.
.
.

Seria a primeira vez que houvesse de re correr à bolsa alheia, quando a

solução do assunto depende exclusivamente de mim.
.
.

Suas palavras demonstravam acanhamento, aliado à tristeza comumente

experimentada nos dias de humi lhação e de infortúnio.
Ante aqu ela expressão

de renúncia, Tiago, num movimento de grande espontaneidade, tomou -lhe a

mão e beijou-a murmurando:

— Não te aflijas: sabemos em Jerusalém da exten são de teus esforços

pessoais e não seria razoável que a igreja se desinteressasse dessas

imposições que se não justificam .
.
.
Nossa instituição pagará todas as

despesas.
Não é pouco concordares com o sacrifício.

Conversaram ainda longo tempo, com relação aos problemas interessantes

à propaganda evangélica e, no dia seguinte, Paulo e os companheiro s

compareceram na igreja de Jerusalém, recebidos por Tiago acompanhado de

todos os anciães judeus, simpatizantes do Cristo e seguidores de Moisés,

congregados para ouvi-lo.

A reunião começou com rigoroso cerimonial, per cebendo o ex-rabino a

extensão das influências farisaicas no instituto que se destinava à sementeira

luminosa do Divino Mestre.

Seus companheiros, acostumados à inde pendência do Evangelho, não

conseguiam ocultar a surpresa; mas, com um gesto, o convertido de Damasco

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fez que todos permanecessem silenciosos.

Convidado a explicar-se, o ex-rabino leu um longo relatório de suas

atividades junto dos gentios, havendo -se com muita ponderação e inexcedível

prudência.

Os judeus, que, contudo, pareciam definitivamente instalados na igreja,

mantendo as velhas atitudes dos mestres de Israel, pelo seu vogal Cainan,

formularam ao ex-doutor conselhos e censuras.
Alegaram que tam bém eram

cristãos, mas, rigorosos observadores da Lei Antiga; que Paulo não deveria

trabalhar contra a circuncisão e lhe cumpria dar ampla satisfação de seus atos.

Com profunda admiração dos companheiros, o ex -rabino mantinha-se

calado, recebendo as objurgatórias e repreensões com imprevista serenidade.

Por fim, Cainan fez a proposta a que Tiago se re ferira na véspera.
A fim de

satisfazer a exigência do Sinédrio, o tecelão de Tarso deveria purificar -se no

Templo, com quatro judeus paupérrimos que haviam feito voto de nazireus,

ficando o Apóstolo dos gentios obrigado a custear todas as despesas.

Os amigos de Paulo surpreenderam-Se, ainda mais, quando o viram

levantar-se na assembléia preconceituosa e confessar -se pronto a atender a

íntimação.

O representante dos anciães discorreu, ainda, pedante e demoradamente

sobre os preceitos da raça, ouvido por Paulo com beatifica paciência.

Regressando à casa de Mnason, o ex -rabino procurou informar os

companheiros das razões da sua atitude.
Ha bituados a acatar-lhe as decisões

confiadamente, dispensaram-se de perguntas quiçá supérfluas, mas

desejavam acompanhar o Apóstolo ao Templo de Jerusalé m, para

experimentarem alguma coisa da sua renúncia sincera, com relação ao futuro

do evangelismo.
Paulo frisou a conveniência de seguir só, mas Trófimo, que

ainda se demorava alguns dias em Jerusalém, antes de regressar a Antioquia,

insistiu e conseguiu que o Apóstolo lhe aceitasse a companhia.

O comparecimento de Paulo de Tarso no Templo, acompanhando quatro

irmãos de raça, em mísero estado de pobreza, a fim de com eles purificar -se e

pagar-lhes as despesas do voto, causou enorme sensação em todos os

círculos do farisaísmo.
Acenderam-se discussões violentas e rudes.
Assim que

viu o ex-rabino humilhado, o Sinédrio pretendia impor sentenças novas.
Já não

lhe bastavam as imposições anteriores – No segundo dia da santificação, o

movimento popular crescera no Templo em proporções assustadoras.
Todos

queriam ver o célebre doutor que enlouquecera às portas de Damasco, devido

ao sortilégio dos galileus.
Paulo observava a eferves cência do cenário em torno

da sua personalidade e pedia a Jesus não lhe faltasse com a s energias

suficientes.
No terceiro dia, à falta de outro pretexto para condenação maior,

alguns doutores alegaram que Paulo tinha o atrevimento de se fazer

acompanhar aos lugares sagrados por um homem de origem grega, estranho

às tradições israelitas.
Trófimo nascera em Antioquia, de pais gregos, tendo

vivido muitos anos em Éfeso; entretanto, apesar do sangue que lhe corria nas

veias, conhecia os preceitos do judaísmo e portava -se, nos recintos

consagrados ao culto, com inexcedível respeito.
As autoridades , contudo, não

quiseram ponderar tais particularidades.
Era pre ciso condenar Paulo de Tarso

novamente, haviam de fazê-lo a qualquer preço.

O ex-rabino percebeu a trama que se delineava e rogou ao discípulo não

mais o acompanhasse ao monte Moriá, onde se p rocessavam os serviços

religiosos.
O ódio farisaico, porém, continuava a fermentar.

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Na véspera do último dia da purificação judaica, o convertido de Damasco

compareceu às cerimônias com a mesma humildade.
Logo, porém, que se

colocou em posição de ôrar ao l ado dos companheiros, alguns exal tados o

cercaram com expressões e atitudes ameaça doras.

—Morte ao desertor!.
.
.
Pedras à traição! gri tou uma voz estentórica,

abalando o recinto.

Paulo teve a impressão de que esses brados eram a senha para maiores

violências, porque, imediatamente, estourou uma gritaria infernal.
Alguns

judeus frementes agarraram-no pela gola da túnica, outros travaram-lhe os

braços, violentamente, arrastando -o para o grande pátio reservado aos

movimentos do grande público.

—Pagarás teu crime!.
.
.
diziam uns.

—É necessário que morras! Israel se envergonha de tua presença no

mundo! — bradavam outros mais furiosos.

O Apóstolo dos gentios entregou -se sem a mínima resistência.
Num

relance, considerou os objetivos profundos de sua vind a a Jerusalém,

concluindo que não fora convocado tão -só para a obrigação pueril de acompanhar

ao Templo quatro irmãos de raça, desolados na sua indigência.

Cumpria-lhe afirmar, na cidade dos rabinos, a firmeza de suas convicções.

Entendia, agora, a sutileza das circunstâncias que o conduziam ao tes temunho.

Primeiramente, a reconciliação e o melhor conhecimento de um

companheiro como Tiago, obede cendo a uma determinação que lhe parecera

quase infantil; em seguida, o grande ensejo de provar a fé e a consagração de

sua alma a Jesus-Cristo.
Com enorme surpresa, tomado de profundas e

dolorosas reminiscências, notou que os israelitas exaltados deixavam -no à

mercê da multidão furiosa, justamente no pátio onde Estevão havia sido

apedrejado vinte anos atrás.
Alguns populares desvairados arrebataram -no à

força, prendendo-o ao tronco dos suplícios.
Engolfado nas suas lem branças, o

grande Apóstolo mal sentia os bofetões que lhe aplicavam.
Rápido,

arregimentou as mais singulares reflexões.
Em Jerusalém, o M estre Divino

padecera os martírios mais dolorosos; ali mesmo, o generoso Jeziel se imolara

por amor ao Evangelho, sob os golpes e chuf as da populaça.
Sentiu -se então

envergonhado pelo suplício infligido ao irmão de Abigail, oriundo de suas

próprias iniciativas.
Somente agora, atado ao poste do sacrifício, compreendia

a extensão do sofrimento que o fanatismo e a ignorância causavam ao mundo.

E refletiu: — O Mestre é o Salvador dos homens e aqui padeceu pela redenção

das criaturas.
Estevão era seu discípulo, devotado e amoroso, e aqui

experimentou.
igualmente, os suplícios da morte.
Jesus era o Filho de Deus,

Jeziel era seu Apóstolo.
E ele? Não estava ali o passado a reclamar resgates

dolorosos? Não seria justo padecer muito, pelo muito que martirizara os

outros? Era razoável que sentisse alegria naqueles instantes amargos, não só

por tomar a cruz e seguir o Mestre bem-amado, como por ter tido o ensejo de

sofrer o que Jeziel havia experimentado com grande amargura.

Essas reflexões proporcionavam-lhe algum consolo.
A consciência sentia –

se mais leve.
Ia dar testemunho da fé, em Jerusalém, onde se encontrara com

o irmão de Abigail; e, depois da morte, podia aproximar -se do seu coração

generoso, falando-lhe com júbilo dos seus próprios sacrifícios.
Pedir-lhe-ia

perdão e exaltaria a bondade de Deus, que o conduzira ao mesmo lugar, para

os resgates justos.
Alongando o olhar, entreviu a pequena porta de acesso ao

pequeno aposento onde estivera com a noiva amada e seu irmão prestes a

282

desprender-se do mundo nas agonias extremas.
Parecia ouvir ainda as

derradeiras palavras de Estevão misturadas de bondade e perdão.

Mal não saíra de suas reminiscências, quando a primeira pedrada o

despertou para escutar o vozerio do povo.

O grande pátio estava repleto de israelitas sanhudos.
Objurgatórias

sarcásticas cortavam os ares.
O es petáculo era o mesmo do dia em que

Estevão partira da Terra, Os mesmos impropérios, as fisionomias escar ninhas

dos verdugos, a mesma frieza implacável dos carrascos do fanatismo, O

próprio Paulo não se furtava à admiração, ao verificar as coincidências

singulares.
As primeiras pedras acertaram-lhe no peito e nos braços, ferindo -o

com violência.

— Esta será em nome da Sinagoga dos cilícios! —dizia um jovem, em coro

de gargalhadas.

A pedra passou sibilando e dilacerou, pela primeira vez, o rosto do

Apóstolo.
Um filete de sangue começou a ensopar -lhe as vestiduras.
Nem um

minuto, porém, deixou de encarar os carrascos com a sua desconcertante

serenidade.

Trófimo e Lucas, entretanto, cientes da gravida de da situação, desde os

primeiros instantes, através de um amigo que presenciara, a cena inicial do

suplício, procuraram imediatamente o socorro das autoridades ro manas.

Receosos de novas complicações, não declinaram as verdadeiras condições

do convertido de Damasco.
Alegavam, apenas, tratar-se de um homem que

não devia padecer nas mãos dos israelitas fanáticos e inconscientes.

Um tribuno militar organizou incontinenti um troço de soldados.
Deixando a

fortaleza, penetraram no amplo átrio, com ânimo decid ido.
A massa delirava

num turbilhão de altercações e gritarias ensurdecedoras.
Dois centuriões,

obedecendo às ordens do comando, avança ram, resolutos, desatando o

prisioneiro e arrebatando-o à multidão que o disputava ansiosa.

—Abaixo o inimigo do povo! .
.
.
Ë um criminoso! Ë um malfeitor!

Estraçalhemos o ladrão!.
.
.

Pairavam no ar as exclamações mais estranhas.
Não encontrando rabinos

de responsabilidade para os esclarecimentos imprescindíveis, o tribuno romano

mandou que o acusado fosse algemado.
O milit ar estava convencido de que se

tratava de perigoso malfeitor que, de há muito, se transformara em terrível

pesadelo dos habitantes da província.
Não encontrava outra explica ção para

justificar tanto ódio.

O peito contuso, ferido no rosto e nos braços, o A póstolo seguiu para a

Torre Antônia, escoltado pelos prepostos de César, enquanto a multidão

encaudava o pequeno cortejo, bradando sem cessar: — Morra! Morra!

Ia penetrar o primeiro pátio da grande fortaleza romana quando Paulo,

compreendendo afinal que não fora a Jerusalém tão-só para acompanhar

quatro nazireus paupérrimos ao monte Moriá, e sim para dar um testemunho

mais eloqüente do Evangelho, interrogou o tribuno com humildade:

—Permitis, porventura, que vos diga alguma coisa? Percebendo -lhe as

maneiras distintas, a nobre inflexão da palavra em puro grego, o chefe da

coorte replicou muito admirado:

—Não és tu o bandido egípcio que, há algum tempo, organizou a malta de

ladrões que devastam estas pa ragens?

—Não sou ladrão — respondeu Paulo, parecendo uma figura estranha, em

vista do sangue que lhe cobria o rosto e a túnica singela —, sou cidadão de

283

Tarso e rogo-vos permissão para falar ao povo.

O militar romano ficou boquiaberto com tamanha distinção de gestos e não

teve outro recurso senão ceder, embora hesitante.

Sentindo-se num dos seus grandes momentos de tes temunho, Paulo de

Tarso subiu alguns degraus da esca daria enorme e começou a falar em

hebraico, impressionando a multidão com a profunda serenidade e elegância

do discurso.
Começou explicando suas primeiras lutas, seus remorsos por

haver perseguido os discípulos do Mestre Divino; historiou a viagem a

Damasco, a infinita bondade de Jesus que lhe permitira a visão gloriosa,

dirigindo-lhe palavras de advertência e perdão.
Rico das reminiscência s de

Estevão.
falou do erro que havia come tido em consentir na sua morte.

Ouvindo-lhe a palavra cinzelada de misteriosa beleza, Cláudio Lísias,

tribuno romano que efetuara a prisão, experimentou sensações indefiníveis.

Por sua vez, havia recebido certos b enefícios daquele Cristo incompreendido a

que se referia o orador em circunstâncias tão amargas.
Tomado de escrúpulos,

mandou chamar o tribuno Zelfos, de origem egípcia, que adquirira certos títulos

romanos, pela expressão de sua enorme fortuna, e solicito u:

— Amigo — disse com voz quase imperceptível —, não desejo tomar aqui

certas decisões, relativamente ao caso deste homem.
A multidão está exaltada

e é possível que ocorram acontecimentos muito graves.
Desejaria tua

cooperação imediata.

— Sem dúvida — respondeu o outro, resoluto.

E enquanto Lísias procurava examinar, de modo minucioso, a figura do

Apóstolo, que falava de maneira impressionante, Zelfos desdobrava -se em

providências oportunas.
Reforçou a guarnição dos soldados, iniciou a formatura

de um cordão de isolamento, buscando res guardar o orador de um ataque

imprevisto.

Paulo de Tarso, depois de circunstanciado relatório da sua conversão,

começou a falar da grandeza do Cristo, das promessas do Evangelho, e

quando se detinha a comentar suas relações c om o mundo espiritual, de onde

recebia as mensagens confortantes do Mestre, a massa inconsciente, furiosa,

agitou-se em ânsias mesquinhas.
Grande número de israelitas despia o manto,

arrojando poeira no ar, num impulso característico de ignorância e maldad e.

O momento era gravíssimo.
Os mais exal tados tentaram romper o cordão

dos guardas para trucidar o prisioneiro.
A ação de Zelfos foi rápida.
Mandou

recolher o Apóstolo ao interior da Torre Antônia.
E enquanto Cláudio Lísias se

recolhia à residência, a f im de meditar um pouco na sublimidade dos conceitos

ouvi-dos, o companheiro de milícia tomou providências enér gicas para

dispersar a multidão.
Não eram poucos os que teimavam em vociferar na via

pública, mas o chefe militar mandou dispersar os recalcitran tes à pata de

cavalo.

Conduzido a uma cela úmida, Paulo sentiu que os soldados o tratavam

com a maior desconsideração.
As feridas doíam -lhe penosamente.
Tinha as

pernas doloridas e trôpegas.
A túnica estava empapaçada de sangue.
Os

guardas impiedosos e irônicos amarraram-no a grossa coluna, conferindo-lhe o

tratamento destinado aos crimi nosos comuns.
O Apóstolo, sentindo -se exausto

e febril, chegou à conclusão de que não lhe seria fácil resistir à nova provação

de martírio.
Refletiu que não era justo entr egar-se de todo às disposições

perversas dos soldados que o guardavam.
Lembrou que o Mestre se imolara

na cruz, sem resistir à crueldade das criaturas, mas também afirmara que o Pai

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não deseja a morte do pecador.
Não podia alimentar a presunção de entregar –

se como Jesus, porque somente Ele possuía bastante amor para consti tuir-se

Enviado do Todo-Poderoso; e como se reconhecia pecador convertido ao

Evangelho, era justo o desejo de trabalhar até ao último dia de suas

possibilidades na Terra, em favor dos irmãos em humanidade e em bene fício

da própria iluminação espiritual.

Recordou a prudência que Pedro e Tiago sempre testemunharam para

que as tarefas a eles confiadas não sofressem prejuízos injustificáveis e,

verificando as suas escassas probabili dades de resistência física, naquela hora

inesquecível, gritou aos soldados:

— Prendestes-me à coluna reservada aos crimino sos, quando não podeis

imputar-me falta alguma!.
.
.
Vejo, agora, que preparais açoites para a

flagelação, quando já me encontro banhado em sa ngue, no suplício imposto

pela turba inconsciente.
.
.

Um dos guardas, um tanto irônico, procurou cor tar-lhe a palavra e

sentenciou:

—Ora esta!.
.
.
Não sois um Apóstolo do Cristo? Consta que teu Mestre

morreu na cruz caladinho e, por fim, ainda pediu perdão para os algozes,

alegando que ignoravam o que faziam.

Os companheiros do engraçado romperam em gar galhadas estrídulas.

Paulo de Tarso, entretanto, eviden ciando toda a nobreza do coração, no fulgor

do olhar, replicou sem hesitação:

—Sim, rodeado pelo povo ignorante e inconsciente, no dia do Calvário,

Jesus pediu a Deus perdoasse as tre vas de espírito em que se submergia a

multidão que lhe levantara o madeiro de ignomínia; mas os agentes do governo

imperial não podem ser a turba que desconhece os próprio s atos.
Os soldados

de César devem saber o que fazem, porque, se ignorais as leis, para cuja

execução recebeis soldo, seria mais justo abandonardes o posto.

Os guardas ficaram imóveis, tomados de assombro.

Paulo, entretanto, continuou em voz firme:

—Quanto a mim, pergunto-vos: — Será lícito açoitardes um cidadão

romano, antes de condenado?

O centurião que presidia os serviços da flagelação suspendeu os primeiros

dispositivos.
Zelfos foi chamado com espanto.
Ciente do ocorrido, o tribuno

interrogou o Apóstolo, sumamente admirado:

—Dize-me.
És de fato romano?

— Sim.

Ante a firmeza da resposta, Zelfos achou razoável modificar o tratamento

do prisioneiro.
Receoso de complicações, ordenou que o ex -rabino fosse

retirado do tronco, permitindo-lhe ficar à vontade no acanhado âmbito da cela.

Somente então, Paulo de Tarso conseguiu algum repouso num leito duro,

recebendo uma bilha de água trazida com mais respeito e consideração.

Saciou a sede intensa e dormiu, apesar das feridas sangrentas e do lorosas.

Zelfos, contudo, não estava tranqüilo.
Desconhecia, por completo, a condição

do acusado.

Temendo complicações prejudiciais para a sua posição, aliás invejável do

ponto de vista político, procurou avistar -se com o tribuno Cláudio Lisias.

Esclarecendo o motivo de sua preocupação, o outro murmurou:

—Isso me surpreende, porque a mim afirmou que era judeu, natural de

Tarso da Cuida.

285

Zelfos explicou, então, que tinha dificuldade para discernir a causa,

concluindo:

—Pelo que dizes, ele parece-me antes um mentiroso vulgar.

—Isso não — exclamou Lisias —, naturalmente possuirá titulos de

cidadania do Império e agiu por mo tivos que não estamos habilitados a

apreciar.

Percebendo que o amigo se irritara íntimamente com as suas primeiras

alegações, Zelfos apressou-se a corrigir:

—Teus conceitos são justos.

—Tenho de emiti-los em consciência — acrescentou Lísias bem inspirado

—, porque esse homem, desconhe cido para nós ambos, falou de problemas

muito sérios.

Zelfos pensou um instante e ponderou:

—Considerando tudo isso, proponho seja apresen tado, amanhã, ao

Sinédrio.
Julgo que somente assim poderemos encontrar uma fórmula capaz

de resolver o assunto.

Cláudio Lísias recebeu o alvitre com displicência.
No íntimo, sentia -se mais

propenso a patronar a defesa do Ap óstolo.
Sua palavra, inflamada de fé,

impressionara-o vivamente.
Em breves, rápidos momentos de meditação,

analisou todos os lances pró e contra uma atuação dessa natureza.
Subtrair o

acusado à perseguição dos mais exaltados era uma ação justa; mas dispu tar

com o Sinédrio era uma atitude que reclamava mais prudência.
Conhecia os

judeus, muito de perto, e, por mais de uma vez, experimentara o grau de suas

paixões e caprichos.

Compreendendo, igualmente, que não deve ria despertar qualquer suspeita

do colega, com relação às suas crenças religiosas, fez um gesto afirmativo e

declarou:

—Concordo com o alvitre.
Amanhã, entregá -lo-emos aos juizes

competentes em matéria de fé.
Poderás deixar isso a meu cargo, porque o

prisioneiro será acompanhado de escolta que o garanta contra qualquer violência.

E assim foi.
Na manhã seguinte, o mais alto Tri bunal dos israelitas foi

notificado pelo tribuno Cláudio Lísias de que o pregador do Evangelho

compareceria perante os juizes para os inquéritos necessários, às pri meiras

horas da tarde.
As autoridades do Sinédrio experimentaram enorme regozijo.

Iam, enfim, rever o deser tor da Lei, face a face.
A notícia foi espalhada com

invulgar rapidez.

Paulo, por sua vez, na solidão do cárcere, sentiu -se felicitado com uma

grande surpresa, naquela manhã de sombrias perspectivas.
É que, com

permissão do tribuno, uma velha senhora e seu filho, ainda jovem, penetravam

na cela a fim de visitá-lo.

Era sua irmã Dalila com o sobrinho Estefânio, que conseguiram, depois de

muito esforço, permissão para uma entrevista ligeira.
O Apóstolo abraçou a

nobre senhora, com lágrimas de emoção.
Ela estava alquebra da, envelhecida,

O jovem Estefânio tomou as mãos do tio e beijou -as com veneração e ternura.

Dalila falou das saudades longas, recordou episód ios familiares com a

poesia do coração feminino, e o ex -doutor de Jerusalém recebia todas as

notícias, boas e más, com imperturbável serenidade, como se procedessem de

um mundo muito diferente do seu.

Buscou, entretanto, confortar a irmã, que, a uma remin iscência mais dolo286

rosa, se desfazia em prantos.
Paulo historiou sucintamente as suas viagens,

lutas, obstáculos dos caminhos palmilhados por amor de Jesus.
A venerável

senhora, embora alheia às verdades do Cristianismo, muito deli cadamente não

quis tocar nos assuntos religiosos, detendo-se nos motivos afetuosos de sua

visita fraternal e chorando copiosamente ao despedir -se.
Não podia compreender

a resignação do Apóstolo, nem apreciava devi damente a sua

renúncia.

Lastimava-lhe, íntimamente, a sorte e, no fundo, tal como a maioria dos

compatriotas, desdenhava aquele Jesus que não oferecia aos discípulos senão

cruzes e sofrimentos.

Paulo de Tarso, todavia, experimentara grande con forto com a sua

presença; sobretudo, a inteligência e a vivacidade de Estefâ nio, na ligeira

palestra mantida, proporcionavam-lhe enormes esperanças no futuro espi ritual

do sobrinho.

Ainda repassava na mente essa grata impressão quando numerosa escolta

se postava junto à cela, para acompanhá -lo ao Sinédrio, no momento oportuno.

Logo após o meio-dia, compareceu à barra do Tri bunal e percebeu, de

pronto, que o cenáculo dos gran des doutores de Jerusalém vivia um dos seus

grandes dias, repleto de compacta massa popular.
Sua presença provocava

uma aluvião de comentários.
Todos queriam ver, conhecer o trânsfuga da Lei,

o doutor que repudiara e deprimira os títulos sagrados.
Sobremaneira

comovido, o Apóstolo lembrou ainda uma vez a figura de Estevão.
Competia –

lhe, agora, dar igualmente o testemunho do Evangelho de verdade e redenção.

A agitação do Sinédrio dava-lhe a mesma tonalidade dos tempos ali vividos.

Ali, precisamente, infligira as mais duras humilhações ao irmão de Abigail e aos

prosélitos de Jesus.
Era justo, portanto, esperar, agora, acerbos e remissores

sofrimentos.
Depois, para cúmulo de amargura, a singular coinci dência: o

sumo-sacerdote que presidia o feito chamava -se também Ananias! Acaso?

Ironia do destino?

Tal como se verificou com Jeziel, lido o libelo acusa tório, deram a palavra

ao Apóstolo para defender-se, em atenção às prerrogativas de nascimento.

Paulo entrou a justificar-se, sumamente respeitoso.
Risos abafados, não

raro, quebravam o silêncio ambiente, a indiciarem a termometria

sarcasticamente hostil do auditório.

Quando a sua altiloqüente oratória começou a im pressionar pela fidelidade

do testemunho cristão, o sumo -sacerdote lhe impôs silêncio e vociferou

enfático:

— Um filho de Israel, ainda que portador de títulos romanos, quando

desrespeite as tradições desta casa, com afirmativas injuriosas à memória dos

profetas, torna-se passível de severas reprimendas.
O acusado parece ignorar

o dever de explicar-se convenientemente, para tresvariar em conceitos.

sibilinos, próprios da sua desre grada e criminosa obsessão pelo carpinteiro

revolucionário de Nazaré! Minha autoridade não permite abusos nos lugares

santos.
Determino, pois, que Paulo de Tarso seja ferido na boca, em

desafronta aos seus termos insultuosos.

O Apóstolo endereçou-lhe um olhar de serenidade indizível e replicou.

—Sacerdote, vigiai o coração para não incidirdes em repressões injustas.

Os homens, como vós, são como as paredes branqueadas dos sepulcros, mas

não deveis ignorar que também sereis ferido pela justiça de Deus.
Conheço de

sobra as leis de que vos tornastes executor.
Se aqui permaneceis par a julgar,

287

como e por que mandais ferir?

Antes, porém, que pudesse prosseguir, um pequeno grupo de prepostos de

Ananias avançou com açoites minúsculos, ferindo-o nos lábios.

—Ousas injuriar o sumo-sacerdote? — exclamavam fulos de cólera.


Pagarás os insultos!.
.
.

As lambadas riscavam o rosto rugoso e venerando do ex -rabino, sob os

aplausos gerais.

Vozes irônicas elevavam-se, incessantes, do seio da turba refece.
Uns pe –

diam mais rigor, outros, estentóricos, reclamavam o ape drejamento.
A

serenidade do Apóstolo dava pleno testemunho e mais acirrava os ânimos

impulsivos e criminosos.
Destacaram-se certos grupos de israelitas mais

soezes e, cooperando com os verdugos, cuspinhamam -lhe o rosto.

Generalizou-se o tumulto.
Paulo tentou falar, explicar -se mais

detalhadamente, mas a confusão era tal que nada se ouvia e ninguém se

entendia.

O sumo-sacerdote permitira a desordem deliberadamente.
Os elementos

principais do Sinédrio desejavam exterminar o ex -doutor a qualquer preço.
O

Tribunal só se prestara ao julgamento de entremez, porque havia percebido o

interesse pessoal de Cláudio Lísias pelo prisioneiro.
Não fora isso, Paulo de

Tarso teria sido assassinado em Jerusalém, para satisfazer aos sentimentos

odiosos dos inimigos gratuitos da sua abençoada tarefa apos tólica.
Solicitado

pelo tribuno, presente à reunião memorial, Ananias conseguiu restabelecer a

calma no ambiente.
Depois de apelos desesperados, a assembléia emudeceu,

expectante.

Paulo tinha o rosto a sangrar, a túnica em fran galhos; mas, com surpresa e

pasmo gerais, revelava no olhar, ao contrário de outros tempos, em

circunstâncias dessa natureza, grande tranqüilidade fraternal, dando a

entender que compreendia e perdoava os agravos da ignorância.

Supondo-se em posição vantajosa, o sumo sacerdote acentu ou em tom

arrogante:

— Devias morrer como teu Mestre, numa cruz des prezível! Desertor das

tradições sagradas da pátria e blasfemo criminoso, não te bastam, por justo

castigo, os sofrimentos que começas a experimentar entre os legíti mos filhos

de Israel!.
.
.

O Apóstolo, no entanto, longe de acovardar -se, replicou tranqüilamente:

— Juízo apressado o vosso.
.
.
Não mereço a cruz do Redentor, porque a

sua auréola é gloriosa demais para mim; entretanto, os martírios todos do

mundo seriam justos, aplicados ao pecador que sou.
Temeis os sofrimentos

porque não conheceis a vida eterna, considerais as provações como quem

nada vê além destes efêmeros dias da existência humana.
A política

mesquinha vos distanciou o espírito das visões sagradas dos profetas!.
.
.
Os

cristãos, sabei-o, conhecem outra vida espiritual, suas esperanças não

repousam em triunfos mendazes que vão apodrecer com o corpo no sepulcro!

A vida não é isto que vemos na banalidade de todos os dias terrestres; é antes

afirmação de imortalidade gloriosa com Jesus-Cristo!

A palavra do orador parecia magnetizar, agora, a assembléia em peso.
O

próprio Ananias, não obstante a cólera surda, sentia -se incapaz de qualquer

reação, como se algo de misterioso o compelisse a ouvir até ao fim.

Imperturbável em sua serenidade, Paulo de Tarso prosseguiu:

— Continuai a ferir-me! Escarrai-me na face! Açoitai-me! Esse martirológio

288

me exalta para uma esperança superior, porque já criei no meu íntimo um

santuário intangível às vossas mãos e onde Jesus há de reinar para Sempre .
.
.

— Que desejais — continuou em voz firme — com as vossas arruaças e

perseguições? Afinal, onde o motivo para tantas lutas estéreis e destruidoras?

Os cristãos trabalham, como o fez Moisés, para a crença em Deus e em nossa

gloriosa ressurreição.
É inút il dividir, fomentar a discórdia, tentar empanar a

verdade com as ilusões do mundo.
O Evangelho do Cristo é o Sol que ilumina

as tradições e os fatos da Antiga Lei!.
.
.

Nesse ínterim, não obstante a estupefação de mui tos, estabeleceu-se nova

balbúrdia.
Os saduceus atiraram-se contra os fariseus, com gestos e

apóstrofes delirantes.
Em vão, o sumo-sacerdote procurava acalmar os

ânimos.
Um grupo mais exaltado tentava aproximar -se do ex-rabino, disposto a

estrangulá-lo.

Foi aí que Cláudio Lísias, apelando par a os soldados, fez-se ouvir na

assembléia, ameaçando os contendores.
Surpreendidos com o fato insólito,

porqüanto os romanos jamais procuravam intervir em assuntos religiosos da

raça, os trêfegos israelitas submeteram-se imediatamente.
O tribuno dirigiu -se,

então, a Ananias e reclamou o en cerramento dos trabalhos, declarando que o

prisioneiro voltaria ao cárcere da Torre Antônia, até que os judeus resolvessem

ventilar o caso com mais critério e sere nidade.

As autoridades do Sinédrio não disfarçaram seu en orme espanto; mas,

como o governador da província continuava em Cesaréia, não seria razoável

desatender ao seu preposto em Jerusalém.

Antes que se verificassem novos tumultos, Ananias declarou que o

julgamento de Paulo de Tarso, consoante a ordem recebida, prosseguiria na

próxima sessão do Tribunal, a realizar-se daí a três dias.

Os guardas retiraram o prisioneiro, com grande cautela, enquanto os

israelitas mais eminentes buscavam conter os protestos isolados dos que

acusavam Cláudio Lísias de parcial e simpatizante do novo credo.

Reconduzido à cela silenciosa, Paulo pôde respirar e refazer o ânimo para

enfrentar a situação.

Experimentando justa simpatia por aquele homem valoroso e sincero, o

tribuno tomou novas providências a seu favor.
O ex -doutor da Lei estava mais

satisfeito e aliviado.
Teve um guarda para atendê -lo em qualquer necessidade,

recebeu água em abundância, remédio, alimentos e a visita dos amigos mais

íntimos.
Essas mostras de apreço muito o comoviam.
Espiritualmente, sen tiase

até mais confortado; doía-lhe, porém, o corpo ferido, e físicamente estava

exausto.
.
.
Depois de palestrar alguns minutos, conforme a permissão recebida,

com Lucas e Timóteo, sentiu que certas preocupações dolo rosas lhe

amarguravam o coração.
Seria justo pensar numa v iagem a Roma, quando seu

estado físico era assim precário? Resistiria por muito tempo às tremendas per –

seguições iniciadas em Jerusalém? Contudo, as vozes do mundo superior

haviam-lhe prometido essa viagem à capital do Império.
.
.
Não deveria duvidar

das promessas feitas em nome do Cristo.
Certa fadiga, aliada a grande

amargura, começava a infirmar -lhe as esperanças sempre ativas.
Mas, caindo

numa espécie de modorra, percebeu, como de outras vezes, que uma viva

claridade inundava o cubículo, ao mesmo tempo q ue suavíssima voz lhe sussurrava:

— Regozija-te pelas dores que resgatam e iluminam a consciência! Ainda

que os sofrimentos se multipliquem, renova os júbilos divinos da esperança!.
.
.

289

Guarda o teu bom ânimo, porque assim como testificaste de mim, em

Jerusalém, importa que o faças também em Roma!.
.
.

De pronto sentiu que novas forças lhe retempera vam o combalido

organismo.

A claridade da manhã surpreendeu -o quase bem disposto.
Nas primeiras horas

do dia, Estefânio procurava-o com certa ansiedade.
Recebido com afetuoso

interesse, o rapaz informou o tio dos graves projetos que se tra mavam na

sombra.
Os judeus haviam jurado exterminar o convertido de Damasco, ainda

que para isso houvessem de assassinar o próprio Cláudio Lísias.
O ambiente

no Sinédrio era de atividades odiosas.
Projetava-se matar o pregador da

gentilidade, à plena luz do dia, na próxima sessão do Tribunal.
Mais de

quarenta comparsas, dos mais fanáticos, haviam prometido, solenemente, a

consecução do sinistro desígnio.
Paulo tudo ouviu e, calma mente chamando o

guarda, disse-lhe:

—Peço-te conduzir este moço à presença do chefe dos tribunos para que

o ouça sobre um assunto urgente.

Assim, Estefânio foi levado a Cláudio Lísias, apre sentando-lhe a denúncia,

O arguto e nobre patrício, com o tacto político que lhe caracterizava as

decisões, prometeu examinar devidamente a questão, sem deixar pre sumir a

adoção de providências definitivas para burlar a conjura.
Agradecendo a

comunicação, recomendou ao jovem o máximo cuidado nos comentários da

situação, a fim de não exacerbar maiormente os ânimos parti dários.

Na solidão do seu gabinete, o tribuno romano pensou seriamente naquelas

perspectivas sombrias.
O Sinédrio, na sua capacidade de intrigar, poderia

promover manifestações do povo sempre versátil e agressivo.
Rabinos

apaixonados podiam mobilizar facínoras e quiçá assas siná-lo em condições

espetaculares.
Mas, a denúncia par tia de um jovem, quase criança.

Além disso, tratava-se de um sobrinho do prisioneiro.
Teria dito a verdade

ou seria mero instrumento de possível mistificação afetiva, nascida de justas

preocupações da família?

Ainda bem não conseguira destrinçar as dúvidas para firmar con duta,

quando alguém pedia o obséquio de uma entrevista.
Desejoso de atreguar

cogitações assim graves, acedeu prontamente.
Abriu a porta luxuosa e um

velhinho de semblante calmo apareceu sorridente.
Cláudio Lisias alegrou -se.

Conhecia-o de perto.
Devia-lhe favores, O visitante inesperado era Tiago, que

vinha interpor sua generosa influência em favor do grande amig o de suas

edificações evangélicas.
O filho de Alfeu repetiu o plano já denunciado por

Estefânio, minutos antes.
E foi mais longe.
Contou a história comovedora de

Paulo de Tarso, revelando-se como testemunha imparcial de toda a sua vida e

esclarecendo que o Apóstolo viera à cidade, por insistência de sua parte, a fim

de combinarem momentosas providências atinentes à propaganda.
Concluía a

exposição atenciosa pedindo ao amigo ilustre medidas eficazes, para evitar o

monstruoso atentado.

Maiormente apreensivo agora, o tribuno ponderou:

— Vossas considerações são justas; entretanto, sin to dificuldadeS para

coordenar providências imediatas.
Não será melhor aguardar que os fatos se

apresentem e reagir, então, à força com a força?

Tiago esboçou um sorriso de dúvid as e sentenciou:

—Sou de parecer que vossa autoridade encontre recursos urgentes.

Conheço as paixões judaicas e o furor de suas manifestações.
Nunca poderei

290

esquecer o odioso fermento dos fariseus, no dia do Calvário.
Se receio pela

sorte de Paulo, temo igualmente por vos mesmo.

A multidão de Jerusalém é criminosa muitas vezes.

Lísias franziu a testa e refletiu longo tempo.
Mas, arrancando -o de sua

indecisão, o velho galileu apresentou-lhe a idéia de transferir o prisioneiro para

Cesaréia, tendo em vista um julgamento mais justo.
A medida teria a virtude de

subtrair o Apóstolo do ambiente irritado de Jerusalém e faria abortar de início o

plano de homicídio; além disso, o tribuno permaneceria a salvo de suspeitas

injustas, mantendo íntegras as tradições d e respeito em torno do seu nome,

por parte dos judeus malevolentes e ingratos.
O feito seria conhecido apenas

dos mais íntimos e o patrício designaria uma escolta de soldados corajosos

para acompanhar o prisioneiro, de vendo sair de Jerusalém depois de mei anoite.

Cláudio Lísias considerou a excelência das sugestões e prometeu pô -las

em prática nessa mesma noite.

Logo que Tiago se despediu, o romano chamou dois auxiliares de

confiança e deu as primeiras ordens para a formação da escolta, forte, de

cento e trinta soldados.
duzentos archeiros e setenta cavaleiros, sob cuja prote –

ção Paulo de Tarso haveria de comparecer perante o go vernador Félix, no

grande porto palestinense.
Os pre postos, atendendo às instruções recebidas,

reservaram para o prisioneiro uma das melhores montarias.

Alta noite, Paulo de Tarso foi chamado com grande surpresa.
Cláudio

Lísias explicou-lhe, em poucas palavras, o objetivo de sua decisão e a extensa

caravana partiu em silêncio, rumo a Cesaréia.

Dado o caráter secreto das providências tomadas, a viagem correu sem

incidentes dignos de menção.
Apenas muitas horas depois partiam da Torre

Antônia os respectivos informes, convencendo -se os judeus, com grande

desapontamento, da inutilidade de quaisquer represálias.

Em Cesaréia o governador recebeu a expedição com enorme espanto.

Conhecia o renome de Paulo e não era estranho às lutas que sustentava com

os irmãos de raça, mas aquela caravana de quatrocentos homens armados,

para proteger um preso, era de causar admiração.

Depois do primeiro interrogatório, o preposto máximo do Império, na

província, sentenciou:

— Atento à origem judaica do acusado, nada posso julgar sem ouvir o

órgão competente, de Jerusalém.

E mandou que o Sinédrio se fizesse representar na sede do Governo, com

a maior urgência.

Os israelitas estavam sumamente satisfeitos com a ordem.

Conseqüentemente, cinco dias depois da remoção do Apóstolo, o próprio

Ananias fizera questão de chefiar o conjunto de autoridades do Sinédrio e do

Templo, que acorreram a Cesaréia com os projetos mais estranhos,

relativamente à situação do adversário.
Os velhos rabi nos, conhecendo o poder

da lógica e a formosura da palavra do ex -doutor de Tarso, fizeram-se

acompanhar de Tértulo, uma das mais notáveis mentalidades que co operavam

no colendo sodalício.

Improvisado o Tribunal para decidir o feito, o orador do Sinédrio teve a

prioridade da palavra, usando-a em tremendas acusações contra o indiciado

réu, desenhando a cores negras todas as atividades do Cristianismo, e ter –

minando por pedir ao governador a entrega do acusado aos seus irmãos de

291

raça, a fim de ser por eles devida-mente julgado.

Concedido ao ex-rabino o ensejo de explicar -se, Paulo começou a falar

com grande serenidade.
Félix lhe obser vou logo os elevados dotes intelectuais,

os primores dialéticos e ouvia-lhe a argumentação com invulgar interesse.
Os

anciães de Jerusalém não sabiam ocultar a própria ira.
Se possível, teriam

espostejado o Apóstolo ali mesmo, tal a irritação que os assomava, a

contrastar com a tranqüilidade transparente da o ratória e da pessoa do orador

adverso.

O governador teve grande embaraço para pronun ciar o “veredictum”.
De

um lado, via os anciães de Israel em atitude quase colérica, reclamando

direitos de raça; do outro, contemplava o Apóstolo do Evangelho, calmo,

imperturbável, senhor espiritual do assunto, a esclarecer todos os pontos

obscuros do processo singular, com a sua palavra elegante e refletida.

Reconhecendo o extremo valor daquele homem fran zino e envelhecido,

cujos cabelos pareciam encanecidos por doloros as e sagradas experiências, o

governador Félix modificou, apressadamente, suas primeiras impressões e

encerrou os trabalhos nestes termos:

— Senhores, reconheço que o processo é mais grave do que julguei à

primeira vista.

Neste caso, resolvo adiar a senten ça definitiva, até que o tribuno Cláudio

Lísias seja convenientemente ouvido.

Os anciães morderam os lábios.
Debalde o sumo -sacerdote solicitou a

continuação dos trabalhos.
O man datário de Roma não modificou o ponto de

vista e a grande assembléia dissolv eu-se, com imenso pesar dos israelitas

constrangidos a regressar, extremamente desa pontados.

Félix, entretanto, passou a considerar o prisioneiro com maior deferência.

No dia seguinte, foi visitá-lo, concedendo-lhe permissão para receber os

amigos na sala do expediente.
Depreendendo que Paulo gozava de grande

prestígio entre e perante todos os seguidores da doutrina do profeta nazareno,

imaginou, desde logo, tirar algum proveito da situação.
Cada vez que o visi –

tava, surpreendia-lhe maior acuidade mental, a interessá-lo pela sua palestra

viva e palpitante de observações sábias, no conceito e na experiência da vida.

Certo dia, o governador abordou jeitosamente o prisma dos interesses

pessoais, insinuando-lhe a vantagem da sua libertação, de maneira a atend er

às aspirações da comunidade cristã, a que emprestava tanto relevo.

Paulo, porém, observou resoluto:

—Não sou tanto de vossa opinião.
Sempre consi derei que a primeira

virtude do cristão é estar pronto para obedecer à vontade de Deus, em

qualquer parte.
Certo, não estou detido à revelia de sua assistência e proteção,

e desta forma acredito que Jesus julga melhor conservar -me prisioneiro, nos

dias que correm.
Servi-lo-ei, pois, como se estivesse em plena liberdade de

corpo.


Entretanto, continuou Félix, sem coragem para ferir diretamente o ponto

—, vossa independência não seria coisa muito difícil.

—Como assim?

—Não tendes amigos ricos e influentes em todos os recantos provinciais?

— interrogou o preposto governamental, de maneira ambígua.

—Que desejais dizer com isso? — perguntou o Apóstolo por sua vez.

—Creio que se conseguísseis o dinheiro suficiente para atender aos

interesses pessoais de quantos hajam de funcionar no processo, estaríeis

292

completamente livre da ação da justiça, dentro de poucos di as.

Paulo compreendeu as insinuações mal veladas e nobremente revidou:

– Percebo agora.
Falais de uma justiça condicio nada ao capricho criminoso

dos homens.

Essa justiça não me interessa.
Ser -me-á preferível conhecer a morte no

cárcere, a servir de obstáculo à redenção espiritual do mais humilde dos

funcionários de Cesaréia.
Dar -lhes dinheiro em troca de uma independência

ilícita, seria habituá-los ao apego dos bens que lhes não pertencem.
Minha

atividade seria, então, um esforço reconhecidam ente perverso.
Além do mais,

quando temos a consciência pura, ninguém nos pode tolher a liberdade e eu

me sinto aqui tão livre como lá fora, na praça pública.

O governador recebeu a observação franca e áspera, disfarçando o seu

enleio.
A lição humilhava-o duramente e, desde então, desinteressou -se da

causa.
Já havia, porém, comentado, entre os amigos mais íntimos, a privi –

legiada inteligência do prisioneiro de Cesaréia e, daí a dias, sua jovem esposa

Drusila manifestava-lhe o desejo de conhecer e ouvir o Apóstolo.
A seu mau

grado, não podendo esquivar -se, acabou por levá-la à presença do ex-rabino.

Judia de origem, Drusila não se contentou, qual fizera o marido, com

simples indagações superficiais.
Desejosa de sondar -lhe as idéias mais

profundas, pediu-lhe um comentário geral da nova doutrina que esposara e

procurava difundir.

Perante destacadas figuras da Corte Provincial, o va loroso Apóstolo dos

gentios fez brilhante panegírico do Evangelho, ressaltando a inolvidável

exemplificação do Cristo e os deveres do proselitismo que repontava de todos

os recantos do mundo.
A maioria dos ouvintes escutava -o com evidentes

mostras de interesse; mas, quando ele começou a falar da ressurreição e dos

deveres do homem em face das responsabilidades no mundo espiri tual, o

governador fez-se pálido e interrompeu a pregação.

— Por hoje basta! — disse com autoridade.
— Meus familiares poderão

ouvir-vos de outra feita, se lhes aprouver, pois quanto a mim não creio na

existência de Deus.

Paulo de Tarso recebeu a observaçã o com serenidade e respondeu com

benevolência:

— Agradeço a delicadeza da vossa declaração e todavia, senhor

governador, ouso encarecer -vos a necessidade de ponderar o assunto, porque,

quando um homem afirma não aceitar a paternidade do Todo -Poderoso, é que,

em regra, se arreceia do julgamento de Deus.

Félix lançou-lhe um olhar raivoso e retirou-se com os seus, prometendo a si

próprio deixar o prisioneiro entregue à sua sorte.

À vista disso, embora respeitado pela franqueza e lealdade, Paulo houve

de amargar dois anos de reclusão em Cesaréia, tempo esse aproveitado em

relações constantes com as suas igrejas bem-amadas.
Inumeráveis

mensagens iam e vinham, trazendo consultas e levando pareceres e

instruções.

A esse tempo, o ex-doutor de Jerusalém chamou a at enção de Lucas

para o velho projeto de escrever uma biografia de Jesus, valendo -se das

informações de Maria; lamentou não poder ir a Éfeso, incumbindo -o desse trabalho,

que reputava de capital importância para os adeptos do Cristianismo, O

médico amigo satisfez-lhe integralmente o desejo, legando à posteridade o

precioso relato da vida do Mestre, rico de luzes e esperanças divinas.

293

Terminadas as anotações evangélicas, o espírito dinâmico do Apóstolo da

gentilidade encareceu a neces sidade de um trabalho que fixasse as atividades

apostólicas logo após a partida do Cristo, para que o mundo conhecesse as

gloriosas revelações do Pentecostes, e assim se originou o magnífico relatório

de Lucas, que é — Atos dos Apóstolos.

Não obstante a condição de prisioneiro, o convertido de Damasco não

relaxou o trabalho um só dia, va lendo-se de todos os recursos ao seu alcance,

em favor da difusão da Boa Nova.

O tempo corria célere.
Os israelitas, no entanto, nunca desistiram do

primitivo plano de eliminar o va loroso campeão das verdades do Céu.
O

governador foi abordado, várias vezes, sobre a oportunidade de reenviar o

encarcerado a Jerusalém; entretanto, ao lembrar -se de Paulo, a consciência

lhe vacilava.
Além do que por si mesmo observara, ouvira o tribuno Cláudio

Lísias que lhe falara do ex-rabino com indisfarçável respeito.
Mais por medo

dos poderes sobrenaturais atribuídos ao Apósto lo, que por dedicação aos seus

deveres de administrador, resistiu a todas as investidas dos judeus, mantendo –

se firme no propósito de custodiar o acusado, até que surgisse o ensejo de um

julgamento mais ponderado.

Dois anos de prisão contava a folha corrida do gran de amigo dos gentios.

Uma ordem imperial transferira Félix para a administração de outra província.

Sem esquecer a mágoa que a franqueza de Paulo lhe causara, fez questão de

o abandonar à própria sorte.

O novo governador, Pórcio Festo, chegou a Cesaréia em meio de ruidosas

manifestações populares.
Jerusalém não poderia esquivar -se às homenagens

políticas e, tão logo assumira o po der, o ilustre patrício foi visitar a grande

cidade dos rabinos.
O Sinédrio aproveitou o ensejo para requisitar,

instantemente, o velho inimigo de tantos anos.
Um grupo de doutores da Lei

Antiga buscou avistar-se, cerimoniosamente, com o generoso romano,

solicitando a restituição do prisioneiro para julgamento do Tribunal religioso.

Festo recebeu a comissão, cavalheirescamente, e mostrou -se inclinado a

atender, mas, prudente por índole e por dever do cargo, declarou que preferia

solucionar a questão em Cesaréia, onde se lhe facultava conhecer o assunto

com os detalhes imprescindíveis.
Para esse fim, convidava os rabinos a

acompanhá-lo no seu regresso.
Os israelitas exultaram de con tentamento.

Espalharam-se os mais sinistros projetos, para a recepção do Ap óstolo em

Jerusalém.

O governador ali ficou dez dias, mas, antes que regressasse, alguém se

encaminhava a Cesaréia, de cora ção oprimido e ansioso.
Era Lucas, que,

esforçado e solícito, propunha-se informar o prisioneiro de todas as singulares

ocorrências.
Paulo de Tarso ouvia-o com atenção e serenidade; mas, quando o

companheiro passou a relatar os planos do Sinédrio, o amigo do gentilismo fez –

se pálido.
Estava definitivamente assentado que o trânsfuga seria crucificado,

como o Divino Mestre, no mesmo loca l da Caveira.
Havia preparativos para

encenar fielmente o drama do Calvário.
O acusado carregaria a cruz até lá,

arrostando os sarcasmos da populaça e havia até quem falasse no sacrifício de

dois ladrões, para que se repetissem todos os detalhes caracterí sticos do

martírio do Carpinteiro.

Poucas vezes o Apóstolo manifestara tamanha im pressão de espanto.
Por

fim, acrimonioso e enérgico, exclamou:

—Tenho experimentado açoites, apedrejamentos e insultos por toda parte,

294

mas, de todas as perseguições e provaç ões, esta é a mais absurda.
.
.

O próprio médico não sabia como interpretar esse conceito, quando o ex –

rabino prosseguiu:

— Temos de evitar isso, por todos os meios ao nosso alcance.
Como

encarar essa deliberação extravagante de repetir a cena do Calvário? Q ual o

discípulo que teria a coragem de submeter -se a essa falsa paródia com a idéia

mesquinha de atingir o plano do Mestre, no teste munho aos homens? O

Sinédrio está enganado.
Ninguém no mundo logrará um Calvário igual ao do

Cristo.
Sabemos que em Roma os cristãos começam a morrer no sacrifício,

tomados por escravos misérrimos.
Os poderes perversos do mundo

desencadeiam a tempestade de ignomínias sobre a fronte dos seguidores do

Evangelho.
Se eu tiver de testificar de Jesus, fá -lo-ei em Roma.
Saberei morrer

junto dos companheiros, como um homem comum e pecador; mas não me

submeterei ao papel de falso imitador do Messias prometido.
Destarte, já que o

processo vai ser novamente debatido pelo novo governador, apelarei para

César.

O médico fez um gesto de as sombro.
Como a maioria dos cristãos

eminentes de todas as épocas, Lucas não conseguia compreender aquele

gesto, interpretado, à primeira vista, como negativa do testemunho.

—Entretanto — objetou com certa hesitação —Jesus não recorreu para as

altas autoridades no sacrifício da cruz, e eu receio que os discípulos não

saibam interpretar tua atitude, como convém.

—Discordo de ti — respondeu Paulo, resoluto

se as comunidades cristãs não puderem compreender mi nha resolução, prefiro

passar a seus olhos como pedante e desatento, nesta hora singular de minha

vida.
Sou pecador e devo desprezar o elogio dos homens.
Se me condenarem,

não estarão em erro.
Sou imperfeito e pre ciso testemunhar nessa condição

verdadeira de minha vida.
De outro modo seria perturbar mi nha consciência,

provocando um falso apreço humano.

Muito impressionado, Lucas guardou a lição ines quecível.

Três dias depois dessa entrevista, o governador re gressava à sede do

Governo provincial, acompanhado de numeroso séquito de israelitas dispostos

a conseguir a entrega do famoso prisioneiro.

Pórcio Festo, com a serenidade que lhe marcava as atitudes políticas,

procurou conhecer imediatamente a situação.
Reviu o processo

meticulosamente, inteirando-se dos títulos de cidadania romana do acusado,

de acordo com a legislação em vigor.
E notando a insistência dos rabinos que

denotavam enorme ansiedade pela solução do assunto, convocou uma reunião

para novo exame das declarações do acusado, no intuito de satisfazer a

política regional de Jerusalém.

O convertido de Damasco, alquebrado de corpo, mas sempre revigorado

de espírito, compareceu à assembléia sob os olhares rancorosos dos irmãos

de raça, que pleiteavam sua remoção a todo custo.
O Tribunal de Cesaréia

atraía grande multidão, ansiosa de conhecer o n ovo julgamento.
Discutiam os

israelitas, os cristãos comentavam os debates em atitude defensiva.
Mais de

uma vez, Pórcio Festo foi obrigado a levantar a voz, recla mando atenção e

silêncio.

Abertos os trabalhos da assembléia singular, o go vernador interrogou o

acusado, com energia cheia de nobreza.

Paulo de Tarso, entretanto, respondeu a todas as argüições com a

295

serenidade que lhe era peculiar.
Não obstante a manifesta animosidade dos

judeus, declarou que em nada os havia ofendido e não se recordava de

qualquer ato de sua vida no qual houvesse atacado o Templo de Jerusalém ou

as leis de César.

Festo percebeu que tratava com um espírito culto e eminente, e que não

seria tão fácil entregá-lo ao Sinédrio, conforme julgara a princípio.
Alguns

rabinos haviam insistido para que ordenasse a remoção para Jeru salém, pura e

simplesmente, à revelia de quaisquer preceitos legais.
O governador não

hesitaria, nesse particular, fazendo valer sua influência política; mas, não quis

praticar um ato arbitrário antes de c onheçer as qualidades morais do homem

focalizado pelas intrigas judaicas.
No íntimo, considerava que, se se tratasse

de uma personagem vulgar, poderia entregá -lo sem receio à autoridade tirânica

do Sinédrio que, certo, o liqüida ria; mas, outro tanto não aconteceria, caso

verificasse nobreza e inteligência no prisioneiro, porqüanto, com o seu acurado

senso político, não desejava adquirir um inimigo capaz de prejudicá -lo a

qualquer tempo.
Tendo reconhecido os altos dotes intelectuais e morais do

Apóstolo, modificou inteiramente a sua atitude.
Passou logo a considerar com

mais severidade o interlocutor, che gando à conclusão de que seria crime agir

com parcialidade no feito.
Além da cultura que o acusado exibia, tratava -se de

um cidadão romano por títulos le gitimamente adquiridos.
Formulando novas

conjeturas e com imensa surpresa para os representantes confiados do

Sinédrio, Pórcio Festo perguntou ao prisioneiro se con sentia em voltar a

Jerusalém, a fim de lá ser julgado, perante ele próprio, pelo Tribunal religioso

da sua raça.
Paulo de Tarso, compreendendo a cilada dos israelitas, replicou

tranqüilamente, enchendo a assembléia de assombro:

— Senhor governador, estou diante do Tribunal de César, a fim de ser

definitivamente julgado.
Há mais de dois anos esp ero a decisão de um

processo que não posso compreender.
Como sabeis, a ninguém ofendi.
Minha

prisão derivou, tão-só, das intrigas religiosas de Jerusalém.
Desafio, neste

particular, o conceito dos mais exigentes.
Se pratiquei algum ato indigno, peço,

eu mesmo, a sentença de morte.
Convocado a novo jul gamento, acreditei

tivésseis a coragem necessária para romper com as aspirações inferiores do

Sinédrio, fazendo justiça à vossa longanimidade de administrador conscien –

cioso e reto.
Continuo confiando na vossa autoridade, na vossa imparcialidade,

isenta de favor, que ninguém poderá exigir dos vossos encargos honrosos e

delicados.
Examinai detidamente as acusações que me retêm no cárcere de

Cesaréia! Verificareis que nenhum poder provincial poderá entregar -me à

tirania de Jerusalém! Reconhecendo essa valiosa circunstância e invocando

meus títulos, embora creia sinceramente em vossas deli berações sábias e

justas, apelo, desde já, para César!.
.
.

A atitude inesperada do Apóstolo dos gentios pro vocou geral espanto.

Pórcio Festo, muito pálido, engolfou-se em sérias cogitações.
De sua cátedra

de juiz, ensinara, generosamente, o caminho da vida a muitos acusados e

malfeitores; entretanto, naquela hora inolvidável de sua existência, encontrava

um réu que lhe falava ao coração.
A resposta de Paulo valia um pro grama de

justiça e de ordem.
Com imensa dificuldade pedia o restabelecimento da

calma, no recinto.
Os representantes do judaísmo discutiam acaloradamente

entre si; alguns cristãos, mais apressados, comentavam des favoravelmente a

atitude do Apóstolo, apreciando -a superficialmente, como se constituísse uma

negação do testemunho.
O governador reuniu, à pressa, o pequeno conselho

296

dos rabinos mais influentes.

Os doutores da Lei antiga insistiram pela adoção de medid as mais enérgicas,

no pressuposto de que Paulo se modificaria com algumas bastonadas.

Entretanto, sem desprezar a opor tunidade de mais uma prestigiosa lição para

sua vida pública, o governador cerrou ouvidos às intrigas de Jerusalém,

afirmando que de modo algum podia transigir no cumprimento do dever,

naquele significativo instante de sua vida.
Desculpou -se, desapontado, com os

velhos políticos do Sinédrio e do Templo, que o fixavam com olhos rancorosos

e pronunciou as célebres palavras.

—Apelaste para César? Irás a César!

Com essa antiga fórmula ficaram encerrados os trabalhos do novo

julgamento.
Os representantes do Sinédrio retiraram -se extremamente

irritados, exclamando um deles, em voz alta, para o prisioneiro que recebeu o

insulto serenamente:

—Só os desertores malditos apelam para César.
Vai -te para os gentios,

indigno intrujão!.
.
.

O Apóstolo fixou-o com benignidade, enquanto se preparava para voltar

ao cárcere.

O governador, sem perder tempo, determinou se anotasse a petição do

réu, para prosseguimento do feito.
No dia seguinte demorou -se a estudar o

caso e sentiu-se presa de grande indecisão.
Não podia enviar o acusado à

capital do Império, sem justificar os motivos da prisão, por tanto tempo, nos

cárceres de Cesaréia.
Como pro ceder? Mas, decorridos alguns dias, Herodes

Agripa e Berenice vinham saudar o novo governador, em visita cerimonioSa e

imprevista.
O preposto imperial não pôde dissimular as preocupações que o

absorviam, e depois das solenidades protocolares, devidas a hóspedes tão

ilustres, Contou a Agripa a história de Paulo de Tarso, cuja personalidade

empolgava os mais indiferentes.
O rei palestinense, que conhecia a fama do

ex-rabino, manifestou desejo de observá-lo de perto, ao que Festo anuiu

satisfeitíssimo, não somente pela possib ilidade de proporcionar um prazer ao

hóspede generoso, senão também por esperar das impressões do mesmo algo

de útil para ilustrar o processo do Apóstolo, que lhe incumbia enviar para

Roma.

Pórcio deu a esse ato um caráter festivo.
Convidou as personalida des mais

eminentes de Cesaréia, reunindo luzida assembléia em torno do rei, no melhor

e mais vasto auditório da Corte Provincial.
Primeiramente houve bailados e

música; em seguida, o convertido de Damasco, devidamente escoltado, foi

apresentado pelo próprio governador, em termos discretos, mas cordiais e

sinceros.

Herodes Agripa impressionou-se logo, vivamente, com a figura alquebrada

e franzina do Apóstolo, cujos olhos serenos traduziam a energia inquebrantável

da raça.
Curioso por conhecê-lo melhor, mandou que se defendesse de viva

voz.

Paulo compreendeu a profunda significação daquele minuto e passou a

historiar os transes da sua existência com grande erudição e sinceridade.
O rei

ouvia assombrado.
O ex-rabino evocou a infância, deteve -se nas

reminiscências da mocidade, explicou sua aversão aos se guidores do Cristo

Jesus e, exuberante de inspiração, traçou o quadro do seu encontro com o

Mestre redivivo, às portas de Damasco, à viva luz do sol.
Em seguida, passou

a enumerar os feitos da obra de gentilida de, as perseguições sofridas em toda

297

parte por amor ao Evangelho, concluíndo, com veemência, que, sem embargo,

suas pregações não contrariavam, antes corroboravam as pro fecias da Lei

Antiga, desde Moisés.

Dando curso à imaginação ardente e fácil, o orado r tinha os olhos jubilosos

e brilhantes.

A assembléia aristocrática estava eminentemente impressionada com os

fatos narrados, denotando entusiasmo e alegria.
Herodes Agripa, muito pálido,

tinha a impressão de haver encon trado uma das mais profundas vozes da

revelação divina.
Pórcio Festo não ocultava a surpresa que lhe assaltara

subitamente o espírito.
Não presumia no prisioneiro tamanho cabedal de fé e

persuasão.
Ouvindo o Apóstolo descrever as cenas mais belas do seu

apostolado com os olhos repletos de alegria e de luz, transmitindo ao audi tório

atento e comovido idéias imprevistas e singulares, o governador considerou

que se trataria de um louco sublime e disse -lhe, em alta voz, na intercorrência

de uma pausa mais prolongada:

—Paulo, és um desvairado! As muitas letras fazem-te delirar!.
.
.

O ex-rabino, longe de se atemorizar, respondeu no bremente:

—Enganais-vos! Não sou um louco! Diante da vossa autoridade de romano

ilustre, eu não me atreveria a falar desta maneira, pois reconheço que não

estais devidamente preparado para ouvir -me.
Os patrícios de Augusto são

também de Jesus-Cristo, mas ainda não conhecem plenamente o Salvador.
A

cada qual, devemos falar de acordo com sua capacidade espiritual.
Aqui,

porém, senhor governador, se falo com ousadia é p orque me dirijo a um rei que

não ignora o sentido de minhas palavras.
Herodes Agripa terá ouvido Moisés,

desde a infância.
É romano pela cultura, mas alimen tou-se da revelação de

Deus aos seus antepassados.
Nenhuma de minhas afirmações lhe pode ser

desconhecida.
De outro modo, ele trairia sua origem sagrada, pois todos os

filhos da nação que aceitou o Deus único devem conhecer a revelação de

Moisés e dos profetas.
Credes assim, rei Agripa?

A pergunta causou enorme espanto.
O próprio admi nistrador provincial não

teria coragem de se dirigir ao rei com tamanha desenvoltura.
O ilustre

descendente de Ântipas estava altamente surpreendido.
Extrema palidez

cobria-lhe o semblante.
Ninguém, assim, jamais lhe houvera falado em toda a

sua vida.

Percebendo-lhe a atitude mental, Paulo de Tarso completou a poderosa

argumentação, acrescentando:

—Sei que credes!.
.
.

Confuso com o desembaraço do orador, Agripa sa cudiu a fronte como se

desejasse expulsar alguma idéia importuna, esboçou um sorriso vago, dando a

entender que estava senhor de si, e disse em tom de gracejo:

—Ora esta! por pouco me persuades a fazer uma profissão de fé cristã.
.
.

O Apóstolo não se deu por vencido e revidou:

—Oxalá que, por pouco ou muito, vos fizésseis discípulo de Jesus; não

somente vós, mas todos quantos nos ouviram hoje.

Pórcio Festo compreendeu que o rei estava muito mais impressionado do que

se supunha e, desejoso de modificar o ambiente, propôs que as altas

personalidades se retirassem para a refeição da tarde, em palácio.
O ex -rabino

foi reconduzido ao cárcere, deixando nos ouvin tes imorredoura impressão.

Berenice, sensibilizada, foi a primeira a manifestar -se, reclamando demência

para o prisioneiro.
Os demais seguiram a mesma corrente de benévola

298

simpatia.
Herodes Agripa tentou uma fórmula digna para que o Apóstolo fosse

restituido à liberdade.
O governador, porém, explicou que, conhecendo a fibra

moral de Paulo, tomara a sério o seu recurso para César, estando já

pergaminhadas as primeiras instruções a res peito.
Cioso das leis romanas, pôs

embargos ao alvitre, embora pedisse o socorro intelectual do rei para a carta.

de justificação, com que o acusado deveria apresentar -se à autoridade

competente, na capital do Império.
Dese joso de conservar sua tranqüilidade

política, o descendente dos Herodes não aventou qualquer nova sugestão,

lamentando apenas que o prisioneiro já houvesse recor rido em derradeira

instância.
Procurou então cooperar na redação do documento, mostrando -se

contrário ao pregador do Evangelho tão-só pela circunstância de haver

suscitado muitas lutas religiosas na camada popular, em desacordo com a

unidade de fé colimada pelo Sinédrio como baluarte defensivo das tradições do

judaísmo.
Para isso, o próprio rei assinara como testemunha, empres tando

maior importância às alegações do preposto imperial.
Pórcio Festo registrou o

auxílio, extremamente satisfeito.
Estava resolvido o problema e Paulo de Tarso

poderia partir com a primeira leva de sentenciados, para Roma.

Escusado dizer que recebeu a notícia com sereni dade.
Depois de um

entendimento com Lucas, pediu que a igreja de Jerusalém fosse avisada, bem

como a de Sídon, onde o navio, certo, haveria de receber carga e passageiros.

Todos os amigos de Cesaréia foram mobilizados no serviço das comovedoras

mensagens que o ex-rabino dirigiu às amadas igrejas, menos Timóteo, Lucas e

Aristarco, que se propunham acompanhá -lo à capital do Império.

Os dias correram, céleres, até que chegou o momento em que o centurião

Júlio com a sua escolta foi buscar os prisioneiros para a viagem to rmentosa.
O

centurião tinha plenos poderes para determinar todas as providências e, logo,

evidenciando simpatia pelo Apóstolo, ordenou fosse ele conduzido à

embarcação desalgemado, em contraste com os demais prisioneiros.

Otecelão de Tarso, apoiado ao br aço de Lucas, reviu, placidamente, a tela

clara e barulhenta das ruas, afagan do a esperança de uma vida mais alta, em

que os homens pudessem gozar fraternidade em nome do Senhor Jesus.
Seu

coração mergulhava em doces reflexões e preces ardentes, quando fo i

surpreendido com a compacta mul tidão que se premia e agitava na extensa

praça a beira-mar.

Filas de velhos, de jovens e crianças, aglomeraram -se junto dele, a poucos

metros da praia.
À frente, Tiago alquebrado e velhinho, vindo de Jerusalém

com grande sacrifício, por trazer-lhe o ósculo fraternal.
O ardente defensor da

gentilidade não conseguiu dominar a emoção.
Bandos de crianças atiraram -lhe

flores.
O filho de Alfeu, reconhecendo a nobreza daquele Espírito heróico,

tomou-lhe a destra e beijou-a com efusão.
Ali estava com todos os cristãos de

Jerusalém, em condições de fazer a viagem.
Ali estavam confrades de Jope,

de Lida, de Antipátris, de todos os quadrantes provinciais.
As crian ças da

gentilidade uniam-se aos pequeninos judeus, que saudavam carinho samente o

Apóstolo prisioneiro.
Velhos aleijados aproximavam -se respeitosos e

exclamavam:

— Não deveríeis partir!.
.
.

Mulheres humildes agradeciam os benefícios rece bidos de suas mãos.

Doentes curados comentavam a colônia de trabalho que ele sugerira e aju dara

a fundar na igreja de Jerusalém e proclamavam sua gratidão em altas vozes.

Os gentios, convertidos ao Evangelho, bei javam-lhe as mãos, murmurando:

299

— Quem nos ensinará doravante, a sermos filhos do Altíssimo?

Meninos amorosos apegavam-se-lhe à túnica, sob os olhares de mães

consternadas.

Todos lhe pediam que ficasse, que não partisse, que voltasse breve para

os serviços abençoados de Jesus.

Subitamente, recordou a velha cena da prisão de Pedro, quando, ele,

Paulo, arvorado em verdugo dos dis cípulos do Evangelho, visitara a igreja de

Jerusalém, chefiando uma expedição punitiva.
Aqueles carinhos do povo lhe

falavam brandamente à alma.
Significavam que já não era o algoz implacável

que, até então, não pudera compreender a misericórdia divina; traduziam a

quitação do seu débito com a alma do povo.
De consciência um tanto aliviada,

recordou-se de Abigail e começou a cho rar.
Sentia-se, ali, como no seio dos

“filhos do Calvário” que o abraçavam, reconhecidos.
Aqueles mendigos, aque –

les aleijados, aquelas criancinhas eram a sua família.
Naquele inesquecível

minuto da sua vida, sentia-se plenamente identificado no ritmo da harmonia

universal.
Brisas suaves de mundos diferentes balsamizavam -lhe a alma, como

se houvesse atingido uma região divina, depois de venc er grande batalha.
Pela

primeira vez, alguns pequeninos chamaram-lhe “pai”.
Inclinou-se, com mais

ternura, para as criancinhas que o rodeavam.
Inter pretava todos os episódios

daquela hora inolvidável como uma bênção de Jesus que o ligava a todos os

seres.
À sua frente, o oceano em calma assemelhava -se a um caminho infinito

e promissor de misteriosas e inefáveis belezas.

Júlio, o centurião da guarda, aproximou -se comovido e falou com brandura:

—Infelizmente, chegou o momento de partir.

E, testemunha das manifestações tributadas ao Após tolo, também ele tinha

os olhos úmidos.
Muitos réus se lhe haviam já deparado naquelas

circunstâncias e eram todos revoltados, desesperados, ou penitentes arrepen –

didos.
Aquele, porém, estava sereno e quase feliz.
Júbilo ind izível lhe

transbordava dos olhos brilhantes.
Além disso, sabia que aquele homem,

dedicado ao bem de todas as criaturas, não cometera falta alguma.
Por isso

mesmo, conservou-se ao seu lado, como querendo compartilhar dos

transportes afetuosos do povo, como a demonstrar a consideração que lhe

merecia.

O Apóstolo dos gentios abraçou os amigos pela últi ma vez.
Todos

choravam discretamente, à maneira dos sinceros discípulos de Jesus, que não

pranteiam sem consolo: as mães ajoelhavam-se com os filhinhos na areia alva,

os velhos, apoiando-se a rudes cajados, com imenso esforço.
Todos os que

abraçavam o campeão do Evan gelho, punham-se de joelhos, rogando ao

Senhor que abençoasse o seu novo roteiro.

Concluíndo as despedidas, Paulo acentuava com se renidade heróica:

—Choremos de alegria, irmãos! Não há maior gló ria neste mundo que a de

estar o homem a caminho de Cristo Jesus!.
.
.
O Mestre foi ao encontro do Pai,

através dos martírios da Cruz! Abençoemos nossa cruz de cada dia.
É preciso

trazermos as marcas do Senhor Jesus! Não acredito possa voltar aqui, com

este alquebrado corpo de minhas lutas materiais.
Espero que o Senhor me

conceda o derradeiro testemunho em Roma; entre tanto, estarei convosco pelo

coração; voltarei às nossas igrejas em Espírito; cooperarei no vosso esforço

nos dias mais amargos.
A morte não nos separará, tal como não separou o

Senhor da comunidade dos discípulos.
Nunca estaremos distantes uns dos

outros e, por isso mesmo, prometeu Jesus que estaria ao nosso lado até ao fim

300

dos séculos!.
.
.

Júlio ouviu a exortação, comovidamente.
Lucas e Aristarco soluçavam

baixinho.

A seguir, o Apóstolo tomou o braço do médico amigo e, seguido de perto

pelo centurião, caminhou resoluto e sereno em demanda do barco.

Centenas de pessoas acompanharam as manobras da largada, em

santificado recolhimento regado de lágrimas e preces.
Enquanto o navio se

afastava lento, Paulo e os companheiros contemplavam Cesaréia, de olhos

umedecidos.
A multidão silenciosa, dos que ficavam em pran to, acenava e

ondeava na praia que a distância, aos poucos, diluía.
Jubiloso e reconhecido,

Paulo de Tarso descansava o olhar no campo de suas lutas acerbas, me –

ditando nos longos anos de viltas e reparações necessá rias.
Recordava a

infância, os primeiros sonhos da juven tude, as inquietações da mocidade, os

serviços dignificantes do Cristo, sentindo que deixava a Palestina para sempre.

Grandiosos pensamentos o empolgavam, quando Lucas se aproximou e,

apontando a distância os amigos que continuavam genuflexos, exclamou

brandamente:

— Poucos fatos me comoveram tanto no mundo, como este! Registrarei

nas minhas anotações como foste amado por quantos receberam das tuas

mãos fraternais o benefício de Jesus!.
.
.

Paulo pareceu ponderar profundamente a advertên cia e acentuou:

— Não, Lucas.
Não escrevas sobre virtudes que não tenho.
Se me amas

não deves expor meu nome a falsos julgamentos.
Deves falar, isso sim, das

perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor

que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homen s mais

empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no

momento justo; citarás os combates que temos travado desde o pri meiro

instante, em face das imposições do farisaísmo e das hipocrisias do nosso

tempo; comentarás os obstáculos vencidos, as humilhações dolorosas, as

dificuldades sem conta, para que os futuros discípulos não esperem a re –

denção espiritual com o repouso falso do mundo, confiantes no favor

incompreensível dos deuses e sim com trabalhos ásperos, com sacrifícios

abençoados pelo aperfeiçoamento de si mesmos; falarás de nossos encontros

com os homens poderosos e cultos; de nossos serviços junto dos

desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do Evangelho, no futuro, não

se arreceiem das situações mais difíceis e es cabrosas, conscientes de que os

mensageiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem instrumentos

legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se desdobram

à evolução da Humanidade.

E depois de longa pausa, em que observou a atenção com que Lucas lhe

acompanhou os inspirados raciocínios, prosseguiu em tom sereno e firme:

— Cala sempre, porém, as considerações, os favo res que tenhamos

recolhido na tarefa, porque esse galar dão só pertence a Jesus.
Foi Ele quem

removeu nossas misérias angustiosas, enchendo o nosso vácuo; foi sua mão

que nos tomou caridosamente e nos reconduziu ao caminho santo.
Não me

contaste tuas lutas amargurosas no passado distante? Não te contei como fui

perverso e ignorante, em outros tempos? Assim como iluminou minhas veredas

sombrias, às portas de Damasco, levou -te Ele à igreja de Antioquia, para que

lhe ouvisses as verdades eternais.
Por mais que tenhamos estudado, senti mos

um abismo entre nós e a sabedoria eterna; por mais que tenhamos trabalhado,

301

não nos encontramos dignos dAquele que nos assiste e guia desde o primeiro

instante da nossa vida.
Nada possuímos de nós mesmos!.
.
.
O Se nhor enche o

vácuo de nossa alma e opera o bem que não possuímos.
Esses velhinhos

trêmulos que nos abraçaram em lágrimas, as cri anças que nos beijaram com

ternura, fizeram-no ao Cristo.
Tiago e os companheiros não vie ram de

Jerusalém tão-só para manifestar-nos sua fraternidade afetuosa; vieram trazer

testemunhos de amor ao Mestre que nos reuniu na mesma vibração de solida –

riedade sacrossanta, embora não saibam traduzir o meca nismo oculto dessas

emoções grandiosas e sublimes.
No meio de tudo isso, Lucas, fomos apenas

míseros servos que se aproveitaram dos bens do Senhor para pagar as

próprias dívidas.
Ele nos deu a misericórdia pa ra que a justiça se cumprisse.

Esses júbilos e essas emoções divinas lhe pertencem.
.
.
Não tenhamos,

portanto, a mínima preocupação de relatar episódios que deixariam uma porta

aberta para a vaidade incompreensível.
Que nos baste a profunda convicção

de havermos liqüidado nossos débitos clamorosos.
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.

Lucas ouviu admirado essas considerações oportu nas e justas, sem saber

definir a surpresa que lhe causavam.

—Tens razão — disse finalmente —, somos fracos demais para nos

atribuirmos qualquer valor.

—Além disso — acrescentou Paulo —, a batalha do Cristo está começada.

Toda vitória pertencerá ao seu amor e não ao nosso esforço de servos

endividados.
.
.
Escreve, portanto, tuas anotações do modo mais simples e nada

comentes que não seja para glorificação do Mestr e no seu evangelho imortal!.
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.

Enquanto Lucas procurava Aristarco para transmi tir-lhe aquelas sugestões

sábias e afetuosas, o ex-rabino continuou fitando o casario de Cesaréia, que se

apagava agora no horizonte.
A embarcação navegava suavemente, afastando –

se da costa.
.
.
Por longas horas, deixou -se ficar ali, meditando o passado que

lhe surgia aos olhos espirituais, qual imenso crepúsculo.
Mergulhado nas re –

miniscências entrecortadas de preces a Jesus, ali perma neceu em significativo

silêncio, até que começaram a brilhar no firmamento muito azul os primeiros

astros da noite.

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