5 Lutas pelo Evangelho – PAULO E ESTEVÃO – FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

O regresso de Paulo e Barnabé foi assinala do em Antíoquia com imenso

regozijo.
A comunidade fraternal admirou, profundamente comovida, o feito dos

irmãos que haviam levado a regiões tão pobres, e distantes, as sementes

divinas da verdade e do amor.

Por muitas noites consecutivas, os recém-chegados apresentaram o

relatório verbal de suas atividades, sem omitir um detalhe.
A igreja antioquense

vibrou de alegria e rendeu graças ao Céu.

Os dois dedicados missionários haviam voltado em uma fase de grandes

dificuldades para a instituição.
Ambos perceber am-nas, contristados.
As

contendas de Jerusalém estendiam-se a toda a comunidade de Andio quia; as

lutas da circuncisão estavam acesas.
Os pró prios chefes mais eminentes

estavam divididos pelas afirmativas dogmáticas.
Tão alto grau atingiram os dis –

crimes, que as vozes do Espírito Santo não mais se manifestavam.
Manahen,

cujos esforços na igreja eram indispensáveis, mantinha -se a distância, em vista

das discussões estéreis e venenosas.
Os irmãos achavam -se extremamente

confusos.
Uns eram partidários da cir cuncisão obrigatória, outros se batiam

pela independência irrestrita do Evangelho.
Eminentemente preocupado, o

pregador tarsense observou as polêmicas furiosas, a respeito de alimentos

puros e impuros.

Tentando estabelecer a harmonia geral em torno dos e nsinamentos do

Divino Mestre, Paulo tomava inutilmente a palavra, explicando que o Evangelho

era livre e que a circuncisão era, tão -somente, uma característica convencional

da intolerância judaica.
Não obstante sua autoridade inconteste, que se

aureolava de prestígio perante a comunidade inteira, em vista dos grandes

valores espirituais conquistados na missão, os desentendimentoS persistiam.

Alguns elementos chegados de Jerusalém complica ram ainda mais a

situação.
Os menos rigorosos falavam da autoridade absoluta dos Apóstolos

galileus.
Comentava-se, à sorrelfa, que a palavra de Paulo e Barnabé, por

muito inspirada que fosse nas lições do Evangelho, não era bastantemente

autorizada para falar em nome de Jesus.

A igreja de Antioquia oscilava numa posição d e imensa perplexidade.

Perdera o sentido de unidade que a caracterizava, dos primórdios.
Cada qual

doutrinava do ponto de vista pessoal.
Os gentios eram tratados com zombarias;

organizavam-se movimentos a favor da circuncisão.

Fortemente impressionados com a situação, Paulo e Barnabé combinam

um recurso extremo.
Deliberam convidar Simão Pedro para uma visita pessoal

à instituição de Antioquia.

Conhecendo-lhe o espírito liberto de preconceitos religiosos, os dois

companheiros endereçam-lhe longa missiva, explicando que os trabalhos do

Evangelho precisavam dos seus bons ofícios, insis tindo pela sua atuação

prestigiosa.

O portador entregou a carta, cuidadosamente, e, com grande surpresa para

os cristãos antioquenos, o ex -pescador de Cafarnaum chegou à cidade ,

evidenciando grande alegria, em razão do período de repouso físico que se lhe

deparava naquela excursão.

Paulo e Barnabé não cabiam em si de contentes.
Acompanhando Simão,

viera João Marcos que não aban donara, de todo, as atividades evangélicas.
O

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grupo viveu lindas horas de confidências íntimas, a propósito das viagens

missionárias, relatadas inteligentemente pelo ex -rabino, e relativamente aos

fatos que se desenrolavam em Jerusalém, desde a morte do filho de Zebedeu,

contados por Simão Pedro, com sin gular colorido.

Depois de bem informado da situação religiosa em Antioquia, o ex –

pescador acrescentava:

— Em Jerusalém, nossas lutas são as mesmas.
De um lado a igreja cheia

de necessitados, todos os dias; de outro as perseguições sem tréguas.
No

centro de todas as atividades, permanece Tiago com as mais rís pidas

exigências.
Às vezes, sou tentado a lutar para restabelecer a liberdade dos

princípios do Mestre; mas, como proceder? Quando a tempestade religiosa

ameaça destruir o patrimônio que conseguimos ofe recer aos aflitos do mundo,

o farisaísmo esbarra na observância rigorosa do companheiro e é obrigado a

paralisar a ação criminosa, encetada desde muito tempo.
Se tra balhar por

suprimir-lhe a influência, estarei precipi tando a instituição de Jerusalém no

abismo da destruição pelas tormentas políticas da grande cidade.
E o pro –

grama do Cristo? e os necessitados? seria justo preju dicarmos os mais

desfavorecidos por causa de um ponto de vista pessoal?

E ante a atenção profunda de Paulo e Barnabé, o bondoso c ompanheiro

continuava:

— Sabemos que Jesus não deixou uma solução di reta ao problema dos

incircuncisos, mas ensinou que não será pela carne que atingiremos o Reino, e

sim pelo raciocínio e pelo coração.
Conhecendo, porém, a atuação do

Evangelho na alma popular, o farisaísmo autoritário não nos perde de vista e

tudo envida por exterminar a árvore do Evangelho, que vem desabrochando

entre os simples e os pacíficos.
É indispensável, pois, todo o cuidado de nossa

parte, a fim de não causarmos pre juízos, de qualquer natureza, à planta divina.

Os companheiros faziam largos gestos de aprovação.
Revelando sua

imensa capacidade para nortear uma idéia e congraçar os numerosos

prosélitos em divergência, Simão Pedro tinha uma palavra adequada para cada

situação, um esclarecimento justo para o problema mais singelo.

A comunidade antioquiana regozijava -se.
Os gentios não ocultavam o

júbilo que lhes ia nalma.
O gene roso Apóstolo a todos visitava pessoalmente,

sem distinção ou preferência.

Antepunha sempre um bom sorris o às apreensões dos amigos que

receavam a alimentação “impura” e costumava perguntar onde estavam as

substâncias que não fossem abençoadas por Deus.
Paulo acompanhava -lhe os

passos sem dissimular íntima satis fação.

Num louvável esforço de congraçamento, o Apóstolo dos gentios fazia

questão de levá-lo a todos os lugares onde houvesse irmãos perturbados pelas

idéias da circuncisão obrigatória.
Estabeleceu -se, rapidamente, notável

movimento de confiança e uniformidade de opi nião.
Todos os confrades

exultavam de contentamento.

Eis, porém, que chegam de Jerusalém três emissá rios de Tiago.
Trazem

cartas para Simão, que os recebe com muitas demonstrações de estima.
Daí

por diante, modifica-se o ambiente.
O ex-pescador de Cafarnaum, tão dado à

simplicidade e à independência em Cristo Jesus, retrai -se imediatamente.
Não

mais atende aos convites dos incircuncisos.
As festividades íntimas e

carinhosas, organizadas em sua honra, já não contam com a sua presença

alegre e amiga.
Na igreja, modificou as mínimas atitude s.
Sempre em

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companhia dos mensageiros de Jerusalém, que nunca o deixavam, parecia

austero e triste, jamais se referindo à liberdade que o Evangelho outorgara à

consciência humana.

Paulo observou a transformação, tomado de pro fundo desgosto.
Para o seu

espírito habituado, de modo irrestrito, à liberdade de opinião, o fato era

chocante e doloroso.

Agravara-o a circunstância de partir justamente de um crente como Simão,

altamente categorizado e respeitável em todos os sentidos.
Como interpretar

aquele procedimento em completo desacordo com o que se esperava?

Ponderando a grandeza da sua tarefa junto dos gentios, a menor pergunta dos

amigos, nesse particular, deixava-o confuso.
Na sua paixão pelas atitudes

francas, não era dos trabalhadores que conseguem es perar.
E após duas

semanas de expectação ansiosa, dese joso de proporcionar uma satisfação aos

numerosos elementos incircuncisos de Antioquia, convidado a falar na tribuna

para os companheiros, começou por exaltar a emancipação religiosa do

mundo, desde a vinda de Jesus-Cristo.

Passou em revista as generosas demonstrações que o Mestre dera aos

publicanos e aos pecadores.
Pedro ouvia -o, assombrado com tanta erudição e

recurso de hermenêutica para ensinar aos ouvintes os princípios mais difíceis,

Os mensageiros de Tiago estavam igualmente surpreendidos, a assembléia

ouvia o orador atentamente.

Em dado instante, o tecelão de Tarso olhou fixa -mente para o Apóstolo

galileu e exclamou:

— Irmãos, defendendo o nosso sentimento de uni ficação em Jesus, não

posso disfarçar nosso desgosto em face dos últimos acontecimentos.
Quero

referir-me à atitude do nosso hóspede muito amado, Simão Pedro, a quem

deveríamos chamar “mestre”, se esse título não coubesse de fato e de direito

ao nosso Salvador.
(1)

A surpresa foi grande e o espanto geral.
O Após tolo de Jerusalém tambêm

estava surpreso, mas parecia muito calmo.
Os emissários de Tiago revelavam

profundo mal-estar.
Barnabé estava lívido.
E Paulo prosseguia sobranceiro:

— Simão tem personificado para nós um exemplo vivo.
O Mestre no-lo

deixou como rocha de fé imortal.
No seu coração generoso temos depositado

as mais vastas esperanças.

Como interpretar seu procedimento, afastan do-se dos irmãos incircuncisos,

desde a chegada dos mensageiros de Jerusalém? Antes disso, compa recia

aos nossos serões íntimos, comia do pão de nossas mesas.
Se assim procuro

esclarecer a questão, abertamente, não é pelo desejo de escandalizar a quem

quer que seja, mas porque só acredito num Evangelho livre de todos os

preconceitos errôneos do mundo, considerando que a palavra do Cristo não

está algemada aos interesses inferiores do sacerdócio, de qualquer natureza.

(1) As observações de Paulo na Epístola aos Gálatas (capítulo 2º,

versículos 11 e 14) referem-se a um fato anterior à reunião dos dis cípulos.

— (Nota de Emmanuel)

O ambiente carregara-se de nervosismo.
Os gentios de Antioquia fitavam

o orador, enternecidos e gratos.
Os simpatizantes do farisaísmo, ao contrário,

não escondiam seu rancor, em face daquela coragem quase audaciosa.
Nesse

instante, de olhos inflamados por sen timentos indefiníveis, Barnabé tomou a

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palavra, enquanto o orador fazia uma pausa, e considerou:

— Paulo, sou dos que lamentam tua atitude neste passo.
Com que direito

poderás atacar a vida pura do continuador de Crist o Jesus?

Isso, inquiria-o ele em tom altamente comovedor, com a voz embargada de

lágrimas.
Paulo e Pedro eram os seus melhores e mais caros amigos.

Longe de se impressionar com a pergunta, o orador respondeu com a

mesma franqueza:

— Temos, sim, um direito: — o de viver com a verdade, o de abominar a

hipocrisia, e, o que é mais sagrado — o de salvar o nome de Simão das

arremetidas farisaicas, cujas sinuosidades conheço, por constituírem o báratro

escuro de onde pude sair para as claridades do Evangelho da re denção.

A palestra do ex-rabino continuou rude e franca.
De quando em quando,

Barnabé surgia com um aparte, tornando a contenda mais remida.

Entretanto, em todo o curso da discussão, a figura de Pedro era a mais

impressionante pela augusta sere nidade do semblante tranqüilo.

Naqueles rápidos instantes, o Apóstolo galileu con siderou a sublimidade da

sua tarefa no campo de batalha espiritual, pelas vitórias do Evangelho.
De um

lado estava Tiago, cumprindo elevada missão junto do judaísmo; de suas

atitudes conservadoras surgiam incidentes felizes para a manutenção da igreja

de Jerusalém, erguida como um ponto inicial para a cristianização do mundo;

de outro lado estava a figura poderosa de Paulo, o amigo desassombrado dos

gentios, na execução de uma tarefa sublime; de seus atos heróicos, derivava

toda uma torrente de iluminação para os povos idólatras.
Qual o maior a seus

olhos de companheiro que convivera com o Mestre e dele recebera as mais

altas lições? Naquela hora, o ex -pescador rogou a Jesus lhe concede sse a

inspiração necessária para a fiel observância dos seus deveres.
Sentiu o

espinho da missão cravado em pleno peito, impossibilitado de se justificar com

a só intencionalidade de seus atos, a menos que provocasse maior escândalo

para a instituição cristã, que mal alvorecia no mundo.
De olhos úmidos,

enquanto Paulo e Barnabé se debatiam, teve a impressão de ver novamente o

Senhor, no dia do Calvário.
Ninguém o compreendera.
Nem mesmo os

discípulos amados.
Em seguida, pareceu vê -lo expirante na cruz do martírio.

Uma força oculta conduzia-o a ponderar o madeiro com atenção.
A cruz do

Cristo parecia-lhe, agora, um símbolo de perfeito equilíbrio.
Uma linha

horizontal e uma linha vertical, justa postas, formavam figuras absolutamente

retas.
Sim, o instrumento do suplício enviava-lhe uma silenciosa mensagem.

Era preciso ser justo, sem parcialidade ou falsa inclinação, O Mestre amara

a todos, indistintamente.
Repartira os bens eternos com todas as criaturas.
Ao

seu olhar compassivo e magnânimo, gentios e judeu s eram irmãos.

Experimentava, agora, singular acuidade para examinar conscienciosamente

as circunstâncias.
Devia amar a Tiago pelo seu cuidado generoso com os

israelitas, bem como a Paulo de Tarso pela sua dedicação extraordinária a

todos quantos não conheciam a idéia do Deus justo.

O ex-pescador de Cafarnaum notou que a maioria da assembléia lhe dirigia

curiosos olhares.
Os companheiros de Jerusalém deixavam perceber cólera

íntima, na extrema palidez do rosto.
Todos pareciam convocá -lo à discussão.

Barnabé tinha os olhos vermelhos de chorar e Paulo parecia cada vez mais

franco, verberando a hipocrisia com a sua lógica fulminante.
O Apóstolo

preferiria o silêncio, de modo a não perturbar a fé ardente de quantos se

arrebanhavam na igreja sob as luzes do Eva ngelho; mediu a extensão da sua

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responsabilidade naquele minuto inesquecível.
Encolerizar -se seria negar os

valores do Cristo e perder suas obras; inclinar -se para Tiago seria a

parcialidade; dar absoluta razão aos argumentos de Paulo, não seria justo.

Procurou arregimentar na mente os ensinamentos do Mestre e lembrou a

inolvidável sentença: — o que desejasse ser o maior, fosse o servo de todos.

Esse preceito proporcionou-lhe imenso consolo e grande força espiritual.

A polêmica ia cada vez mais ardida.
Extremavam-se os partidos.
A

assembléia estava repleta de cochichos abafados.
Era natural prever uma

franca explosão.

Simão Pedro levantou-se.
A fisionomia estava serena, mas os olhos

estavam orvalhados de lágrimas que não chegavam a correr.

Valendo-se de uma pausa mais longa, ergueu a VOZ que logo apaziguou o

tumulto:

— Irmãos! — disse nobremente — muito tenho errado neste mundo.
Não é

segredo para ninguém que cheguei a negar o Mestre no instante mais doloroso

do Evangelho.
Tenho medido a misericórdia do Senhor pela profundidade do

abismo de minhas fraquezas.
Se errei entre os irmãos muito amados de

Antioquia, peço perdão de minhas faltas.
Submeto -me ao vosso julgamento e

rogo a todos que se submetam ao julgamento do Altíssimo.

A estupefação foi geral.
Compreendendo o efeito, o ex -pescador concluiu a

justificativa, dizendo:

— Reconhecida a extensão das minhas necessida des espirituais e

recomendando-me às vossas preces, passemos, irmãos, aos comentários do

Evangelho de hoje.

A assistência estava assombrad a com o desfecho imprevisto.
Esperava -se

que Simão Pedro fizesse um longo discurso em represália.
Ninguém conseguia

recobrar-se da surpresa.

O Evangelho deveria ser comentado pelo Apóstolo galileu, mediante

combinação prévia, mas o ex-pescador, antes de sentar-se de novo, exclamou

muito sereno:

— Peço ao nosso irmão Paulo de Tarso o obséquio de consultar e

comentar as anotações de Levi.

Não obstante o constrangimento natural, o ex -rabino considerou o elevado

alcance daquele pedido, renovou num ápic e todos os sentimentos extremistas

do coração ardente e, num formoso improviso, falou da leitura dos

pergaminhos da Boa Nova.

A atitude ponderada de Simão Pedro salvara a igreja nascente.

Considerando os esforços de Paulo e de Tiago, no seu justo valor, ev itara o

escândalo e o tumulto no recinto do santuário.
À custa de sua abnegação

fraternal, o incidente passou quase inapercebido na história da cristandade

primitiva, e nem mesmo a referên cia leve de Paulo na epístola aos Gálatas, a

despeito da forma rígida, expressional do tempo, pode dar idéia do perigo

iminente de escândalo que pairou sobre a institui ção cristã, naquele dia

memorável.

A reunião terminou sem novos atritos.
Simão apro ximou-se de Paulo e

felicitou-o pela beleza e eloqüência do discurso.
Fez questão de voltar ao

incidente para versá-lo com referências amistosas.
O problema do gen tilismo,

dizia ele, merecia, de fato, muito interesse.

Como deserdar das luzes do Cristo o que havia nascido dis tante das

comunidades judaicas, se o próprio Mes tre afirmara que os discípulos

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chegariam do Ocidente e do Oriente?

A palestra suave e generosa reaproximou Paulo e Barnabé, enquanto o ex –

pescador discorria intencionalmente, acalmando os ânimos.

O ex-doutor da Lei continuou a defender sua tese com argume ntação

sólida.
Constrangido a princípio, em face da benevolência do galileu expandiu –

se naturalmente, readquirindo a serenidade íntima.
O problema era complexo.

Transportar o Evangelho para o judaísmo não seria asfixiar -lhe as

possibilidades divinas? — perguntava Paulo, firmando seu ponto de vista.
Mas,

e o esforço milenário dos judeus? — interrogava Pedro, advertindo que, a seu

ver, se Jesus afirmara sua missão como o exato cumprimento da Lei, não era

possível afastar-se a nova da antiga revelação.
Proc eder de outro modo seria

arrancar do tronco vigoroso o galho verde jante, destinado a frutescer.

Examinando aqueles argumentos ponderosos, Paulo de Tarso lembrou,

então, que seria razoável promover em Jerusalém uma assembléia dos

correligionários mais dedicados, para ventilar o assunto com maior ampli tude.

Os resultados, a seu ver, seriam benéficos, por apresentarem uma norma justa

de ação, sem margem a sofismas tão de gosto e hábito farisaicos.

Como alguém que se sentisse muito alegre por en contrar a chave de um

problema difícil, Simão Pedro anuiu de bom grado à proposta, assegurando

interessar-se para que a reunião se fizesse quanto antes.
Íntimamente,

considerou que seria ótima oportunidade para os discípulos de Antioquia

observarem as dificuldades crescentes em Jerusalém.

À noite, todos os irmãos compareceram à igreja para as despedidas de

Simão e para as preces habituais.
Pedro orou com santificado fervor e a

comunidade sentiu-se envolvida em benéficas vibrações de paz.

O incidente a todos deixara tal ou qual perplexidade, mas, as atitudes

prudentes e afáveis do pescador conseguiram manter a coesão geral em torno

do Evangelho, para continuação das tarefas santificantes.

Depois de observar a plena reconciliação de Paulo e Barnabé, Simão

Pedro regressou a Jerusalém com os mensageiros de Tiago.

Em Antioquia, a situação continuou instável.
As dis cussões estéreis

prosseguiam acesas.

A influência judaizante combatia a gentilidade e os cristãos livres opunham

resistência formal ao convencionalismo preconc eituoso.
O ex-rabino,

entretanto, não descansava.
Convocou reu niões, nas quais esclareceu as

finalidades da assembléia que Simão lhes prometera em Jerusalém, na

primeira oportunidade.
Combatente ativo, multiplicou as energias próprias na

sustentação da independência do Cristianismo e prometeu publicamente que

traria cartas da igreja dos Apóstolos galileus, que garantissem a posição dos

gentios na doutrina consoladora de Jesus, alijando -se as imposições absurdas,

no caso da circuncisão.

Suas providências e promessas acendiam novas lutas.
Os observadores

rigorosos dos preceitos antigos duvida vam de semelhantes concessões por

parte de Jerusalém.

Paulo não desanimou.
Íntimamente, idealizava sua chegada à igreja dos

Apóstolos, passava em revista, na imaginação superexcitada, toda a

argumentação poderosa a empregar, e via -se vencedor na questão que se deli –

neava a seus olhos como de essencial importância para o futuro do Evangelho.

Procuraria mostrar a elevada capacidade dos gentios para o serviço de Jesus.

Contaria os êxitos obtidos na longa excursão de mais de quatro anos, através

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das regiões pobres e quase desconhecidas, onde a gentilidade havia recebido

as notícias do Mestre com intenso júbilo e compreensão muito mais elevada

que a dos seus irmãos de raça.
Al argando os projetos generosos, deliberou

levar em sua companhia o jovem Tito, que, embora oriundo das fileiras pagãs e

não obstante contar vinte anos incompletos, representava na igreja de

Antioquia uma das mais lúcidas inteligências a serviço do Senhor.
Desde a

vinda de Tarso, Tito afeiçoara-se-lhe como um irmão generoso.
Notando -lhe a

índole laboriosa, Paulo ensinara -lhe o ofício de tapeceiro e fora ele o seu

substituto na tenda humilde, por todo o tempo que durou a primeira missão.
O

rapaz seria um expoente do poder renovador do Evangelho.
Certamente,

quando falasse na reunião, surpreenderia os mais doutos com os seus

argumentos de alto teor exegético.

Acariciando esperanças, Paulo de Tarso tomou todas as providências para

que o êxito de seus planos não falhasse.

Ao fim de quatro meses, um emissário de Jerusalém trazia a esperada

notificação de Pedro, referente à assembléia.
Coadjuvado pela operosidade de

Barnabé, o ex-rabino acelerou as providências indispensáveis.
Na vés pera de

partir, subiu à tribuna e renovou a promessa das concessões esperadas pelo

gentilismo, insensível ao sorriso irônico que alguns israelitas disfarçavam

cautelosamente.

Na manhã imediata, a pequena caravana partiu.
Compunham -na Paulo e

Barnabé, Tito e mais dois irmãos, que os ac ompanhavam em caráter de

auxiliares.

Fizeram uma viagem vagarosa, escalando em todas as aldeias, para as

pregações da Boa Nova, disseminando curas e consolações.

Depois de muitos dias, chegaram a Jerusalém, onde foram recebidos por

Simão, com inexcedível contentamento.
Em companhia de João, o generoso

Apóstolo ofereceu-lhes fraternal acolhida.
Ficaram todos no de partamento em

que se localizavam numerosos necessita dos e doentes.
Paulo e Barnabé

examinaram as modificações introduzidas na casa.

Outros pavilhões, embora humildes, estendiam-se além, cobrindo não

pequena área.

— Os serviços aumentaram — explicava Simão, bondosamente —; os

enfermos, que nos batem às portas, multiplicam -se todos os dias.
Foi preciso

construir novas dependências.

A fileira de catres parecia não ter fim.
Aleijados e velhinhos distraíam -se ao

sol, entre as árvores amigas do quintal.

Paulo estava admirado com a amplitude das obras.
Daí a pouco, Tiago e

outros companheiros vinham sau dar os irmãos da instituição antioquense.
O

ex-rabino fixou o Apóstolo que chefiava as pretensões do judaísmo.
O filho de

Alfeu aparecia-lhe, agora, radicalmente trans formado.
Suas feições eram de

um “mestre de Israel”, com todas as características indefiníveis dos hábitos

farisaicos.
Não sorria.
Os olhos deixavam perceber uma presunção de

superioridade que raiava pela indiferença.
Seus gestos eram medidos como os

de um sacerdote do Templo, nos atos cerimoniais.
O tecelão de Tarso tirou

suas ilações íntimas e esperou a noite em que se inicia riam as discussões

preparatórias.
À claridade de algumas tochas, sentavam -se em torno de

extensa mesa diversas personagens que Paulo não conhecia.
Eram novos

cooperadores da igreja de Jerusalém, explicava Pedro, com bondade.
O ex –

rabino e Barnabé não tiveram boa impressão, à primeira vista.
Os

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desconhecidos assemelhavam-se a figuras do Sinédrio, na sua posição

hierárquica e convencional.

Chegados ao recinto, o convertido de Damasco expe rimentou sua primeira

decepção.

Observando que os representantes de Antioquia se f aziam acompanhar por

um jovem, Tiago adiantou-se e perguntou:

— Irmãos, é justo saibamos quem é o rapaz que trazeis a este cenáculo

discreto.
Nossa preocupação é fundamentada nos preceitos da tradição que

manda examinar a procedência da juventude, a fim d e que os serviços de Deus

não sejam perturbados.

— Este é o nosso valoroso colaborador de Antioquia — explicou Paulo,

entre orgulhoso e satisfeito —, chama-se Tito e representa uma de nossas

grandes esperanças na seara de Jesus-Cristo.

O Apóstolo fixou-o sem surpresa e tornou a perguntar:

— É filho do povo eleito?

— É descendente de gentios — afirmou o ex-rabino, quase com altivez.

— Circuncidado? — interrogou o filho de Alfeu ciosamente.

— Não.

Este não, de Paulo, foi dito com tal ou qual enfado.
As e xigências de Tiago

enervavam-no.
Ouvindo a negativa, o Apóstolo galileu esclareceu em tom

firme:—

Penso, então, que não será justo admiti -lo na assembléia, visto não ter

ainda cumprido todos os preceitos.

— Apelamos para Simão Pedro — disse Paulo, convicto.
— Tito é

representante de nossa comunidade.

O ex-pescador de Cafarnaum estava lívido.
Colocado entre os dois

grandes representantes, do judaísmo e da gentilidade, tinha que decidir

crestamento o impasse inesperado.

Como sua intervenção direta demoras se alguns minutos, o tecelão tarsense

continuou:

— Aliás, a reunião deverá resolver estas questões palpitantes, a fim de que

se estabeleçam os direitos legí timos dos gentios.

Simão, porém, conhecendo ambos os contendores, deu -se pressa em

opinar, exclamando em tom conciliador:

— Sim, o assunto será objeto de nosso atencioso exame na assembléia.


E dirigindo intencionalmente o olhar ao ex -rabino, prosseguia explicando: —

Apelas para mim e aceito o recurso; no entanto, devemos estu dar a objeção de

Tiago mais detidamente.
Trata-se de um chefe dedicado desta casa e não seria

justo desprezar-lhe os préstimos.
De fato, o conselho discutirá esses casos,

mas isso significa que o assunto ainda não está resolvido.
Proponho, então,

que o irmão Tito seja circuncidado amanhã, para que participe dos debates

com a inspiração superior que lhe conheço.
E tão -só com essa providência os

horizontes ficarão necessariamente aclarados, para tranqüilidade de todos os

discípulos do Evangelho.

A sutileza do argumento removeu os empecilhos.
Se não agradou a Paulo,

satisfez a maioria e, regressando o jovem de Antioquia para o interior da casa,

a assembléia começou pelas discussões preliminares.
O ex -rabino estava

taciturno e abatido.
A atitude de Tiago, os novos elementos estranho s ao

Evangelho, que teriam de votar na reunião, o gesto conciliador de Simão

Pedro, desgostavam-no profundamente.
Aquela imposição no caso de Tito

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figurava-se-lhe um crime.
Tinha ímpetos de regressar a Antioquia, acusar de

hipócritas e “sepulcros caiados” os irmãos judaizantes.
Mas, as cartas de

emancipação que havia prometido aos companheiros da gentilidade? Não seria

mais conveniente recalcar seus melindres feridos por amor aos irmãos de

ideal? Não seria mais justo aguardar deliberações definitivas e hu milhar-se? A

lembrança de que os amigos contavam com as suas promessas acalmou -o.

Fundamente desapontado, o convertido de Damasco acompanhou atento os

primeiros debates.
As questões iniciais davam idéia das gran des modificações

que procuravam introduzir no Evangelho do Mestre.

Um dos irmãos presentes chegava a ponderar que os gentios deviam ser

considerados como o “gado” do povo de Deus: bárbaros que importava

submeter àforça, a fim de serem empregados nos trabalhos mais pesados dos

escolhidos.
Outro indagava se os pagãos eram semelhantes aos outros

homens convertidos a Moisés ou a Jesus.
Um velho de feições rígidas chegava

ao despautério de afiançar que o homem só vingava completar -se depois de

circunciso.
À margem da gentilidade, outros temas fúteis vinham à balha.

Houve quem lembrasse que a assembléia devia regular os de veres

concernentes aos alimentos impuros, bem como sobre o processo mais

adequado à ablução das mãos.
Tiago argumentava e discorria como profundo

conhecedor de todos os preceitos.
Pedro ouvia, com grande serenidade.
Nunca

respondia quando a tese assumia o caráter de conversação, e aguardava

momento oportuno para manifestar -se.
Somente tomou atitude mais enér gica,

quando um dos componentes do conselho pediu para que o Evangelho de

Jesus fosse incorporado ao livro dos profetas, ficando subordinado à Lei de

Moisés para todos os efeitos.
Foi a primeira vez que Paulo de Tarso notou o

ex-pescador intransigente e quase rude, explicando o absurdo de semelhante

sugestão.

Os trabalhos foram paralisados alta noite, em fase de pura preparação.

Tiago recolheu os pergaminhos com anotações, orou de joelhos e a

assembléia dispersou-se para nova reunião no dia imediato.

Simão procurou a companhia de Paulo e Barnabé, para dirigir -se aos

aposentos de repouso.

O tecelão de Tarso estava consternado.
A circunci são de Tito surgia-lhe

como derrota dos seus princípios intransigentes.
Não se conformava, fazendo

sentir ao ex-pescador a extensão de suas contrariedades.

—Mas que vem a ser tão pequena concessão — interrogava o Apóstolo de

Cafarnaum, sempre afável — em face do que pretendemos realizar?

Precisamos de ambiente pacífico para esclarecer o problema da obrigatorie –

dade da circuncisão.
Não firmaste compromisso com o gentilismo de

Antioquia?

Paulo recordou a promessa que fizera aos irmãos e concordou:

—Sim, é verdade.

—Reconheçamos, pois, a necessidade de muita cal ma para chegar às

soluções precisas.

As dificuldades, neste sentido, não prevalecem tão -só para a igreja antioquiana.

As comunidades de Cesar éia, de Jope, bem como de outras regiões,

encontram-se atormentadas por esses casos transcendentes.
Bem sabemos

que todas as cerimônias externas são de evidente inutilidade para a alma; mas,

tendo em vista os princípios respeitáveis do judaís mo, não podemos declarar

guerra de morte às suas tradições, de um momento para outro.
Será justo lutar

237

com muita prudência sem ofender rudemente a ninguém.

O ex-rabino escutou as admoestações do Apóstolo e, recordando as lutas

a que ele próprio assistira no ambiente farisaico, pôs-se a meditar

silenciosamente.

Mais alguns passos e atingiram a sala transformada em dormitório de

Pedro e João.
Entraram.
Enquanto Barnabé e o filho de Zebedeu se

entregavam a animada palestra, Paulo sentou -se ao lado do ex-pescador, mergulhando-

se em profundos pensamentos.

Depois de alguns instantes, o ex -doutor da Lei, saindo da sua abstração,

chamou Pedro, murmurando:

—Custa-me concordar com a circuncisão de Tito, mas não vejo outro

recurso.

Atraídos por aquela confissão, Barnabé e Joã o puseram-se também a ouvilo

atentamente.

—Mas, curvando-me à providência — continuou com inexcedível franqueza

—, não posso deixar de reconhecer no fato uma das mais altas demonstrações

de fingimento.
Concordarei naquilo que não aceito de modo algum.
Quase me

arrependo de ter assumido compromissos com os nossos amigos de Antioquia;

não supunha que a política abominável das sinagogas houvesse invadido

totalmente a igreja de Jerusalém.

O filho de Zebedeu fixou no convertido de Damasco os olhos muito lúc idos,

ao passo que Simão respondia serenamente:

—A situação é, de fato, muito delicada.
Principal mente depois do sacrifício

de alguns companheiros mais amados e prestimosos, as dificuldades religiosas

em Jerusalém multiplicam-se todos os dias.

E vagueando o olhar pelo aposento, como se qui sesse traduzir fielmente o

seu pensamento.
continuou:

— Quando se agravou a situação, cogitei da possi bilidade de me transferir

para outra comunidade; em seguida, pensei em aceitar a luta e reagir; mas,

uma noite, tão bela como esta, orava eu neste quarto, quando percebi a

presença de alguém que se aproximava devagarinho.
Eu estava de joelhos

quando a porta se abriu com imensa surpresa para mim.

Era o Mestre! Seu rosto era o mesmo dos formosos dias de Tiberíades.

Fitou-me grave e terno, e falou: — “Pedro, atende aos “filhos do Calvário”,

antes de pensar nos teus caprichos!” A maravilhosa visão durou um minuto,

mas, logo após, pus-me a recordar os velhinhos, os necessitados, os igno –

rantes e doentes que nos batem à porta .
O Senhor recomendava-me atenção

para os portadores da cruz.
Desde então, não desejei mais que servi -los.

O Apóstolo tinha os olhos úmidos e Paulo sentia -se bastante

impressionado, pois lembrava que ouvira a ex pressão “filhos do Calvário” dos

lábios espirituais de Abigail, quando da sua gloriosa visão, no silêncio da noite,

ao aproximar-se de Tarso.

—Com efeito, grande é a luta — concordou o convertido de Damasco,

parecendo mais tranqüilo.

E mostrando-se convicto da necessidade de exami nar o realismo da vida

comum, não obstante a beleza das prodigiosas manifestações do plano

invisível, voltou a dizer:

—Entretanto, precisamos encontrar um meio de libertar as verdades

evangélicas do convencionalismo humano.
Qual a razão principal da

preponderância farisaica na igreja de Jerusalém?

238

Simão Pedro esclareceu sem rebuços:

—As maiores dificuldades giram em torno da ques tão monetária.
Esta

casa alimenta mais de cem pessoas, diariamente, além dos serviços de

assistência aos enfermos, aos órfãos e aos desampar ados.
Para a manutenção

dos trabalhos são indispensáveis muita coragem e muita fé, porque as dívidas

contraídas com os socorredores da cidade são inevitáveis.

—Mas os doentes — interrogou Paulo, atencioso — não trabalham depois

de melhorados?

— Sim — explicou o Apóstolo —, organizei serviços de plantação para os

restabelecidos e impossibilitados de se ausentarem logo de Jerusalém.
Com

isso, a casa não tem necessidade de comprar hortaliças e frutas.
Quanto aos

melhorados, vão tomando o encargo de e nfermeiros dos mais desfavorecidos

da saúde.
Essa providência permitiu a dispensa de dois homens remunerados,

que nos auxiliavam na assistência aos loucos incuráveis ou de cura mais difícil.

Como vês, estes detalhes não foram esquecidos e mesmo assim a igr eja está

onerada de despesa e dívidas que só a cooperação do judaísmo pode atenuar

ou desfazer.

Paulo compreendeu que Pedro tinha razão.
No en tanto, ansioso de

proporcionar independência aos esfor ços dos irmãos de ideal, considerou:

—Advirto, então, que precisamos instalar aqui elementos de serviço que

habilitem a casa a viver de re cursos próprios.
Os órfãos, os velhos e os

homens aproveitáveis poderão encontrar atividades além dos trabalhos

agrícolas e produzir alguma coisa para a renda indispen sável.
Cada qual

trabalharia de conformidade com as próprias forças, sob a direção dos irmãos

mais experimentados.
A produção do serviço garantiria a manuten ção geral.

Como sabemos, onde há trabalho há riqueza, e onde há cooperação há

paz.
É o único recurso para emancipar a igreja de Jerusalém das imposições

do farisaísmo, cujas artimanhas conheço desde o princípio de minha vida.

Pedro e João estavam maravilhados.
A idéia de Paulo era excelente.
Vinha

ao encontro de suas preocupações ansiosas, pelas dificuldades que pareciam

não ter fim.

—O projeto é extraordinário — disse Pedro — e viria resolver grandes

problemas de nossa vida.

O filho de Zebedeu, que tinha os olhos radiantes de júbilo, atacou, por sua

vez, o assunto, objetando:

—Mas, o dinheiro? Onde encontrar os fundos indispensáveis ao grandioso

empreendimento?.
.
.

O ex-rabino entrou em profunda meditação e escla receu:

— O Mestre auxiliará nossos bons propósitos.
Bar nabé e eu

empreendemos longa excursão a serviço do Evangelho e vivemos, em todo o

seu transcurso, a expensas do nosso trabalho.
Eu tecelão, ele oleiro, em

atividade provisória nos lugares onde passamos.

Realizada a primeira experiência, poderíamos voltar agora às mesmas

regiões e visitar outras, pedindo recursos para a igreja de Jerusalém.

Provaríamos nosso desinteresse pessoal, vivendo à custa de nosso esforço e

recolheríamos as dádivas por toda parte, conscientes de que, se temos traba –

lhado pelo Cristo, será justo também pedirmos por amor ao Cristo.
A coleta

viria estabelecer a liberdade do Evangelho em Jerusalém, porque representaria

o material indispensável a edificações definitivas no plano do trabalho

remunerador.

239

Estava esboçado, assim, o programa a que o gene roso Apóstolo da

gentilidade haveria de submeter -se pelo resto de seus dias.
No seu

desempenho teria de sofrer as mais cruéis acusações; mas, no santuário do

seu coração devotado e sincero, Paulo, de par com os grandiosos ser viços

apostólicos, levaria a coleta em favor de Jerusa lém, até ao fim da sua

existência terrestre.

Ouvindo-lhe os planos, Simão levantou-se e abraçou-o, dizendo comovido:

— Sim, meu amigo, não foi em vão que Jesus te buscou pessoalmente às

portas de Damasco.

Fato pouco vulgar na sua vida, Paulo tinha os olhos rasos de pranto.
Fitou

o ex-pescador de modo significativo, considerando íntimamente suas dívidas

de gratidão ao Salvador, e murmurou:

— Não farei mais que o meu dever.
Nunca poderei olvidar que Estevão

saiu dos catres desta casa, os quais já serviram igualmente a mim próprio.

Todos estavam extremamente sensibilizados.
Barnabé comentou a idéia

com entusiasmo e enriqueceu o plano de numerosos pormenores.

Nessa noite, os dedicados discípulos do Cristo so nharam com a

independência do Evangelho em Jerusa lém; com a emancipação da igreja,

isenta das absurdas imposições da sinagoga.

No dia imediato procedeu-se solenemente à circuncisão de Tito, sob a

direção cuidadosa de Tiago e com a profunda repugnância de Paulo de Tarso.

As assembléias noturnas continuaram por mais de uma semana.
Nas

primeiras noites, preparando terreno para advogar abertamente a causa da

gentilidade, o ex-pescador de Cafarnaum solicitou aos representantes de

Antioquia expusessem a impressão das visitas aos pagãos de Chipre, Panfília,

Pisídia e Licaônia.
Paulo, fundamente contrariado c om as exigências aplicadas

a Tito, pediu a Barnabé falasse em seu nome.

O ex-levita de Chipre fez extenso relato de todos os acontecimentos,

provocando imensa surpresa a quan tos lhe ouviam as referências ao

extraordinário poder do Evangelho, entre aqueles que ainda não haviam

esposado uma crença pura.
Em seguida, atendendo ainda a observações de

Paulo, Tito falou, profundamente como vido com a interpretação dos

ensinamentos do Cristo e mostrando possuir formosos dons de profecia,

fazendo-se admirar pelo próprio Tiago, que o abraçou mais de uma vez.

Ao termo dos trabalhos, discutia-se ainda a obrigatoriedade da circuncisão

para os gentios.
O ex-rabino seguia os debates, silencioso, admirando o poder

de resistência e tolerância de Simão Pedro.

Quando o ex-pescador reconheceu que as divergên cias prosseguiriam

indefinidamente, levantou-se e pediu a palavra, fazendo a generosa e sábia

exortação de que os Atos dos Apóstolos (capítulo 15º, versículos 7 e 11)

fornecem notícia:

—Irmãos — começou Pedro, enérgico e sereno —, bem sabeis que, de há

muito, Deus nos elegeu para que os gentios ouvissem as verdades do

Evangelho e cressem no seu Reino.

O Pai, que conhece os corações, deu aos circuncisos e aos incircuncisos a

palavra do Espírito Santo.
No dia glorioso do Pe ntecostes as vozes falaram na

praça pública de Jerusalém, para os filhos de Israel e dos pagãos.
O Todo –

Poderoso determinou que as verdades fossem anunciadas indistintamente.

Jesus afirmou que os cooperadores do Reino chegariam do Oriente e do

Ocidente.
Não compreendo tantas controvérsias, quando a situação é tão clara

240

aos nossos olhos.

O Mestre exemplificou a necessidade de harmonização constante:

palestrava com os doutores do Templo; fre qüentava a casa dos publicanos;

tinha expressão de bom ânimo para t odos os que se baldavam de esperança;

aceitou o derradeiro suplício entre os ladrões.
Por que motivo devemos guardar

uma pretensão de isolamento daqueles que experimentam a necessidade

maior? Outro argumento que não deveremos esquecer é o da chegada do

Evangelho ao mundo, quando já possuíamos a Lei.
Se o Mestre no -lo trouxe,

amorosamente, com os mais pesados sacrifícios, seria justo enclausurarmo –

nos nas tradições convencionais, esquecendo o campo de trabalho? Não

mandou o Cristo que pregássemos a Boa Nova a todas as nações? Claro que

não poderemos desprezar o patrimônio dos israelitas.
Temos de amar nos

filhos da Lei, que somos nós, a expressão de profundos sofrimentos e de

elevadas experiências que nos chegam ao coração através de quantos

precederam o Cristo, na tarefa milenária de preservar a fé no Deus único; mas

esse reconhecimento deve inclinar nossa alma para o esforço na redenção de

todas as criaturas.
Abandonar o gentio à própria sorte seria criar duro cativeiro,

ao invés de praticar aquele amor que apaga todos os pecados.
É pelo fato de

muito compreendermos os judeus e de muito esti marmos os preceitos divinos,

que precisamos estabelecer a melhor fraternidade com o gentio, convertendo -o

em elemento de frutificação divina.
Cremos que Deus nos purif ica o coração

pela fé e não pelas ordenanças do mundo.
Se hoje rendemos graças pelo

triunfo glorioso do Evangelho, que instituiu a nossa liberdade, como impor aos

novos discípulos um jugo que, intimamente, não podemos suportar? Suponho,

então, que a circuncisão não deva constituir ato obrigatório para quantos se

convertam ao amor de Jesus-Cristo, e creio que só nos sal varemos pelo favor

divino do Mestre, estendido genero samente a nós e a eles também.

A palavra do Apóstolo caíra na fervura das opiniões co mo forte jato de

água fria.
Paulo estava radiante, ao passo que Tiago não conseguia ocultar o

desapontamento.

A exortação do ex-pescador dava margem a numerosas interpretações; se

falava no respeito amoroso aos judeus, referia -se também a um jugo que não

podia suportar.
Ninguém, todavia, ousou negar -lhe a prudência e bom-senso

indubitáveis.

Terminada a oração, Pedro rogou a Paulo falasse de suas impressões

pessoais, a respeito do gentio.
Mais esperançado, o ex -rabino tomou a palavra

pela primeira vez, no conselho, e convidando Barnabé ao comentário geral,

ambos apelaram para que a assembléia concedesse a necessária

independência aos pagãos, no que se referia à circuncisão.

Havia em tudo, agora, uma nota de satisfação geral.
As observações de

Pedro calaram fundo em todos os companheiros.
Foi então que Tiago tomou a

palavra, e, vendo-se quase só no seu ponto de vista, esclareceu que Simão

fora muito bem inspirado no seu apelo; mas pediu três emendas para que a

situação ficasse bem esclarecida.
Os pagãos ficavam isentos da circuncisão,

mas deviam assumir o compromisso de fugir da idolatria, evitar a luxúria e

abster-se das carnes de animais sufocados.

O Apóstolo dos gentios estava satisfeito.
Fora remo vido o maior obstáculo.

No dia seguinte os trabalhos foram encerrados, lavrando-se as resoluções

em pergaminho.
Pedro providenciou para que cada irmão levasse consigo uma

carta, como prova das deliberações, em virtude da solicitação de Paulo, que

241

desejava exibir o documento como men sagem de emancipação da gentilidade.

Interpelado pelo ex-pescador, quando se achavam a sós, sobre as

impressões pessoais dos trabalhos, o ex -doutor de Jerusalém esclareceu com

um sorriso:

— Em suma, estou satisfeito.
Ficou resolvido o mais difícil dos problemas.

A obrigatoriedade da circuncisão para os gentios representava um crime aos

meus olhos.

Quanto às emendas de Tiago, não me impressio nam, porqüanto a idolatria

e a luxúria são atos detestáveis para a vida particular de cada um; e, quanto às

refeições, suponho que todo cris tão poderá comer como melhor lhe pareça,

desde que os excessos sejam evitados.

Pedro sorriu e explicou ao ex -rabino seus novos planos.
Comentou,

esperançoso, a idéia da coleta geral em favor da igreja de Jerusalém, e,

evidenciando a peculiar prudência, fal ou preocupado:

— Teu projeto de excursão e propaganda da Boa Nova, procurando

angariar alguns recursos para solução de nossos mais sérios encargos, causa –

me justa satisfação; entretanto, venho refletindo na situação da igreja

antioquena.
Pelo que observei de viso, concluo que a instituição necessita de

servidores dedicados que se subs tituam nos trabalhos constantes de cada dia.

Tua ausência, ao demais com Barnabé, trará dificuldades, caso não tomemos

as providências precisas.
Eis por que te ofereço a coop eração de dois

companheiros devotados, que me têm substituído aqui nos encargos mais

pesados.
Trata-se de Silas e Barsabás, dois discípulos amigos da gentilidade e

dos princípios liberais.
De vez em quando, entram em desacordo com Tiago,

como é natural, e, segundo creio, serão ótimos auxiliares do teu programa.

Paulo viu no alvitre a providência que desejava.
Junto de Barnabé, que

participava da conversação, agra deceu ao ex-pescador, profundamente

sensibilizado.
A igreja da Antioquia teria os recursos nece ssários que os

trabalhos evangélicos requeriam.
A medida proposta era -lhe muito grata,

mesmo porque, desde logo tivera por Silas grande simpatia, presumindo nele

um companheiro leal, expedito e dedicado.

Os missionários de Antioquia ainda se demoraram três dias na cidade,

após o encerramento do conselho, tempo esse que Barnabé aproveitou para

repousar em casa da irmã.
Paulo, contudo, declinou do convite de Maria

Marcos e permaneceu na igreja, estudando a si tuação futura, em companhia

de Simão Pedro e dos dois novos colaboradores.

Em atmosfera de grande harmonia, os trabalhadores do Evangelho

versaram todos os requisitos do projeto.

Fato digno de nota a reclusão de Paulo, junto aos Apóstolos galileus,

jamais saindo à rua, para não entrar em contacto com o ce nário vivo do seu

passado tumultuoso.

Finalmente, tudo pronto e ajustado, a missão se dispôs a regressar.
Havia

em todas as fisionomias um sinal de gratidão e de esperança santificada nos

dias do porvir.
Verificava-se, no entanto, um detalhe curioso, que é

indispensável destacar.
Solicitado pela irmã, Bar nabé dispusera-se a aceitar a

contribuição de João Marcos, em nova tentativa de adaptação ao serviço do

Evangelho.
Considerando a boa intenção com que ace dera aos pedidos da

irmã, o ex-levita de Chipre achou desnecessário consultar o companheiro de

esforços comuns.
Paulo, porém, não se magoou.
Acolheu a resolu ção de

Barnabé, um tanto admirado, abraçou o jovem afetuosamente e esperou que o

242

discípulo de Pedro se pronunciasse, quanto ao futuro.

O grupo, acrescido de Silas, Barsabás e João Mar cos, pôs-se a caminho

para Antioquia, nas melhores disposições de harmonia.

Revezando-se na tarefa de pregação das verdades eternas, anunciavam o

Reino de Deus e faziam curas por onde passavam.

Chegados ao destino, com grandes manifestações de júbilo da gentilidade,

organizaram o plano colimado para dar -lhe imediata eficiência.
Paulo expôs o

propósito de voltar às comunidades cristãs já fundadas, estendendo a excursão

evangélica por outras regiões onde o Cristia nismo não fosse conhecido.
O

plano mereceu aprovação geral.
A instituição antioquena ficaria com a

cooperação direta de Barsabás e Silas, os dois companheiros devotados que,

até ali, haviam constituído duas fortes colunas de trabalho em Jerusalém.

Apresentado o relatório verbal dos esforços em pers pectiva, Paulo e

Barnabé entraram a cogitar das últimas disposições particulares.

—Agora — disse o ex-levita de Chipre —, espero concordes com o que

resolvi relativamente a João.

—João Marcos? — interrogou Paulo admirado.

—Sim, desejo levá-lo conosco, a fim de afeiçoá-lo à tarefa.

O ex-rabino franziu o sobrecenho num gesto muito seu, quando

contrariado, e exclamou:

—Não concordo; teu sobrinho está ainda muito jovem para o cometimento.

—Entretanto, prometi à minha irmã acolhê-lo em nossos labores.

—Não pode ser.

Estabeleceu-se entre os dois uma contenda de pala vras, na qual Barnabé

deixava perceber seu descontentamento.
O ex -rabino procurava justificar-se,

ao passo que o discípulo de Pedro alegava o compromisso as sumido e

impugnava, com tal ou qual amargura, a atitude do companheiro, O ex -doutor,

contudo, não se deixou convencer.
A readmissão de João Marcos, dizia, não

era justa.
Poderia falhar novamente, fugir aos compromissos assumidos,

desprezar a oportunidade do sacrifício.
Lembrava as per seguições de Antioquia

de Pisídia, as enfermidades ine vitáveis, as dores morais experimentadas em

Icônio, o apedrejamento cruel na praça de Listra.
Acaso o rapaz estaria

preparado, em tão pouco tempo, para compreen der o alcance de todos esses

acontecimentos, em que a alma era compelida a regozijar -se com o

testemunho?

Barnabé estava magoado, de olhos úmidos.

—Afinal, disse em tom comovedor, nenhum desses argumentos me

convence e me esclarece, em consciência.
Primeiramente, não vejo por que

desfazer nossos laços afetivos.
.
.

O ex-rabino não o deixou terminar e concluiu:

—Isso nunca.
Nossa amizade está muito acima destas circunstâncias.

Nossos elos são sagrados.

—Pois bem — acentuou Barnabé —, como interpretar, então, tua recusa?

Por que negarmos ao rapaz uma nova experiência de trabalho regenerativo?

Não será falta de caridade desprezar um ensejo talvez pro videncial?

Paulo fixou demoradamente o amigo e acrescentou:

—Minha intuição, neste sentido, é diversa da tua.
Quase se mpre, Barnabé,

a amizade a Deus é incompatí vel com a amizade ao mundo.
Levantando -nos

para a execução fiel do dever, as noções do mundo se levantam contra nós.

Parecemos maus e ingratos.
Mas, ouve -me: ninguém encontrará fechadas as

243

portas da oportunidade, porque é o Todo-Poderoso quem no-las abre.
A

ocasião é a mesma para todos, mas os campos devem ser dife rentes.
No

trabalho propriamente humano, as experiên cias podem ser renovadas todos os

dias.
Isso é justo.
Mas considero que, no serviço do Pai, se int errompemos a

tarefa começada, é sinal de que ainda não temos todas as experiências

indispensáveis ao homem completo.
Se a criatura ainda não sabe todas as

noções mais nobres, relativas à sua vida e deveres terrestres, como consa grarse

com êxito ao serviço divino? Naturalmente que não podemos ajuizar se este

ou aquele já terminou o curso de suas demonstrações humanas e que, de hoje

por diante, esteja apto ao serviço do Evangelho, porque, neste particular, cada

um se revelará por si.
Creio, mesmo, que teu sobrinho atingirá essa posição,

com mais algumas lutas.
Nós, entretanto, somos forçados a considerar que não

vamos tentar uma experiência, mas um testemunho.

Compreendes a diferença?

Barnabé compreendeu o imenso alcance daquelas razões concisas,

irrefutáveis, e calou-se para dizer daí a momentos:

— Tens razão.
Desta vez não poderei, portanto, ir contigo.

Paulo sentiu toda a tristeza que transbordava daque las palavras e, depois

de meditar longo tempo, acentuou:

— Não nos entristeçamos.
Estou refletindo na p ossibilidade de tua partida,

com João Marcos, para Chipre.
Ele encontraria, ali, um campo adequado aos

trabalhos que lhe são necessários e, ao mesmo tempo, cuidaria da

organização que fundamos na ilha.
Dentro deste plano, continuaríamos em

cooperação perfeita, mesmo no que se refere à coleta para a igreja de

Jerusalém.
Desnecessário será dizer da utilidade de tua presença em Nea –

Pafos e Salamina.
Quanto a mim, tomaria a Silas, inter nando-me pelo Tauro, e

a igreja de Ãntioquia ficará com a cooperação de Ba rsabás e Tito.

Barnabé ficou contentíssimo.
O projeto pareceu -lhe admirável.
Paulo

continuava, a seus olhos, como o companheiro das soluções oportunas.

E dentro de breves dias, a caminho de Chipre, onde serviria a Jesus até

que partisse, mais tarde, para Roma, Barnabé foi com o sobrinho para

Selêucia, depois de se abraçarem, ele e Paulo, como dois irmãos muito

amados, que o Mestre chamava a diferentes destinos.

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